Desempregado

No dia 2 de abril de 2001, logo depois de recebermos o e-mail dizendo que a Intelligenesis havia falido, eu e meus colegas estávamos todos no escritório sem saber muito bem o que fazer. Tinha sido um susto. Enquanto alguns conversavam sobre terminar o dia em uma churrascaria, eu peguei o carro e fui direto para casa. Afinal, eu tinha uma família para sustentar, um financiamento imobiliário recém-adquirido e minha segunda filha tinha poucos meses de vida.
Quando cheguei em casa no meio da tarde, a Gisele me perguntou, em um tom entre o receio e a brincadeira: “por que você chegou tão cedo, foi demitido?”. Eu não sei se ela tem sexto sentido ou se foi só coincidência, mas acho que ela não esperava que eu respondesse “sim” a essa pergunta. Passei o resto da tarde com os meus filhos e, depois que colocamos os dois para dormir, sentamos na sala para conversar e definir o que fazer a partir dali. Como eu tinha tido um aumento na mudança para BH e guardamos a maior parte desse aumento ao longo dos três meses desde a mudança, tínhamos uma pequena reserva que dava para sobreviver por um tempo. O importante era começar logo a procurar outro emprego.
Ficamos tão envolvidos nessa conversa que, em determinado momento, pensei que precisava avisar a minha mãe do que tinha acontecido. Afinal, os dois filhos dela tinham perdido o emprego no mesmo dia. Só depois que liguei e ela atendeu o telefone é que me dei conta de que já era tarde da noite. Ela levou um susto quando o telefone tocou e imaginou que fosse uma notícia ruim. Acabou que a nossa demissão foi uma notícia melhor do que ela esperava.
Já nos dias seguintes, comecei a fazer contatos para ver se conseguia me recolocar. Fiz um currículo e pedi para o meu amigo Tim, que trabalhava na empresa Tim, dar uma olhada e ver se conseguia ajudar. O primeiro feedback dele foi que o currículo estava horroroso. Como um bom profissional de segurança, resolvi que não dava para fazer o currículo em nenhum formato que pudesse carregar malware. Assim, não dava para fazer em DOC nem em PDF, então fui no mais óbvio: fiz o meu currículo em formato TXT. Esse formato não tem opções de fonte, formatação ou outras formas de embelezar o resultado final. Com esse feedback, peguei o Word e fiz um currículo mais bonitinho.
Ao mesmo tempo, a Gisele também começou a falar com seus contatos. Com isso, descobrimos que a BMS estava contratando. Ela mandou o meu novo e embelezado currículo para a Júnia, que o encaminhou para um de seus contatos na BMS, e o currículo foi parar nas mãos do Fernando, o gerente de infraestrutura que estava com uma vaga aberta. Eles gostaram do meu currículo, me chamaram para as entrevistas e, depois de exames médicos e outras formalidades, fui contratado para trabalhar na área de redes e segurança da BMS. Tudo isso em duas semanas.
Era uma posição dentro do time de projetos de infraestrutura. O salário era mais baixo do que o que eu recebia antes, mas era um bom salário para um analista pleno na época, e a BMS era uma empresa do grupo Belgo-Mineira, um grupo industrial sólido e conhecido como um bom empregador.
A minha recolocação aconteceu tão rápido que muitos colegas da Intelligenesis ainda não tinham nem começado a mandar currículos, e eu já tinha iniciado no novo emprego. Muitos dos meus antigos colegas ainda tinham alguma esperança de continuar o trabalho de desenvolvimento de uma inteligência artificial. Vários deles acabaram fundando uma empresa com dois ramos: um fazia trabalhos de consultoria e desenvolvimento de software, e o outro focava em continuar e melhorar o trabalho em IA que tinha sido iniciado dentro da Intelligenesis. Havia a ideia de implementar o sistema chamado Webmind em C++ em vez de Java, para ganhar desempenho, que era um problema crítico na época.
Uma das primeiras tarefas que tive quando cheguei à BMS foi substituir um colega que estava de saída no desenvolvimento de um software de automação de controle de estoque de mercadorias. Era um sistema bem interessante para a época, baseado em coletores de dados. Esses dispositivos tinham leitor de código de barras e seriam ligados via rede sem fio, permitindo fazer inventários e carregamento de caminhões, com as informações sendo enviadas imediatamente ao sistema central, que poderia emitir notas fiscais, atualizar dados de estoque etc. O problema é que era um sistema em C bastante complexo, com uma arquitetura muito específica e voltado para uma área de negócios sobre a qual eu não tinha muito conhecimento.
Tive muita dificuldade para entender e dar continuidade ao desenvolvimento desse sistema. O meu chefe percebeu isso e conseguiu autorização para contratar um desenvolvedor que pudesse se dedicar a esse sistema. Um pouco antes disso, um dos colegas da Intelligenesis, o Arnon, tinha me passado o currículo dele e perguntado se eu sabia de alguma vaga. Era a pessoa certa para esse trabalho: um desenvolvedor com experiência em Java, em C. Indiquei-o para o Fernando, ele foi contratado e conseguiu destravar o projeto dos coletores de dados. Depois, tivemos vários outros projetos juntos, e fico feliz em ver que o Arnon deu tão certo na BMS que está lá até hoje. Pouco tempo depois, precisamos contratar um desenvolvedor web, e indiquei outro colega da Intelligenesis, o Sapujo, que também foi contratado.
Na BMS, eu finalmente tive a experiência de trabalhar com um bom gerente: alguém que se preocupava com o time, era capaz de discutir questões técnicas e confiava no meu trabalho. Na Intelligenesis, a experiência tinha sido muito ruim e, quando melhorou, foi curta demais.
Conselhos que ninguém pediu mas que vou escrever mesmo assim:
- Hoje em dia é praticamente um clichê: contatos ajudam muito a conseguir um emprego. No caso acima, não só fizeram meu currículo chegar à pessoa que estava contratando, mas também o fato de muitas pessoas que eu conhecia do DCC/UFMG terem trabalhado na BMS ajudou. A empresa já tinha uma boa imagem dos ex-alunos de lá.