Expert Solutions
No último ano do curso apareceu uma matéria optativa nova no currículo chamada empreendimentos em informática. O professor era uma figura muito envolvida com o movimento de empreendedorismo. A ideia da disciplina era preparar os alunos para criarem suas próprias empresas — algo muito próximo do conceito de startup, embora esse nome ainda não fosse usado.
Os trabalhos consistiam em entrevistar empresários, estudar casos reais, escrever planos de negócio e montar o funcionamento completo de uma empresa fictícia. O trabalho final seria exatamente esse: um plano de negócios completo. Haveria um concurso entre os grupos da disciplina, e os três primeiros colocados ganhariam um estande em duas feiras de informática importantes da época: a Inforuso em BH e a Fenasoft, em São Paulo.
Meu grupo era formado por mim, pelo Tim e pelo Rick — que mais tarde virariam meus sócios na Expert Solutions Informática Ltda. Como o Tim cursava Comércio Exterior em paralelo à computação, sugeriu que fizéssemos um software voltado para essa área. Ele já tinha percebido que faltava um sistema que ajudasse empresas que lidavam com importação e exportação a automatizar a papelada: formulários, documentação e processos burocráticos. Então montamos todo o plano de negócios baseado nisso. Fizemos pesquisa, estudamos o funcionamento do setor e deixamos tudo aparentemente bem redondinho.
Quando chegou o dia da apresentação final, fui escolhido para apresentar. Fiz o possível e ficamos em terceiro lugar. Isso significava que teríamos direito ao estande nas duas feiras, cerca de três meses depois. Só havia um problema: teríamos que desenvolver um software completo em três meses.
Chegamos a conversar com um empresário amigo de um parente do Tim, que ofereceu um investimento na empresa. Mas ele queria 51% da sociedade, e tivemos medo de perder o controle. Hoje, olhando para trás, talvez tenha sido a sentença de morte da empresa.
Como o tempo era curto demais, precisávamos de um produto inicial mais simples. Foi então que tive a ideia: criar um software que ajudasse qualquer pessoa a montar sua home page — como chamávamos as páginas web na época. Com algum esforço em Visual Basic, nasceu o Expert Home Page for Windows.
Com o software pronto, era preciso pensar em como vender. Naquela época, software era vendido em lojas, em caixinhas com disquetes. Um amigo do meu irmão, estudante de publicidade, foi contratado para criar os logotipos da empresa e a arte da caixa. Mandamos imprimir na gráfica, preparamos envelopes para os disquetes e, nos finais de semana antes das feiras, levei pilhas de caixas para a casa da minha avó. Minhas primas ajudaram a dobrar, montar e embalar tudo. No fim, tínhamos uma quantidade razoável de caixinhas prontas para levar.
Nos estandes das feiras, porém, fomos colocados em áreas de pouca circulação. Vendemos algumas cópias, mas nada significativo. Passávamos a maior parte do tempo conversando com expositores vizinhos. Clientes eram raros. Ainda assim, tentemos fazer o software ganhar escala. O Tim conseguiu o contato com o dono de uma distribuidora de software em Belo Horizonte e fechamos um contrato — mas a distribuidora ficava com quase metade do valor. O lucro era pequeno.
Depois, tentamos outra estratégia: incluir o software em revistas de informática, aquelas que vinham com CDs cheios de programas. A distribuição nacional poderia render algum dinheiro se conseguíssemos alguns reais por cópia. Mas o acordo não se concretizou. A revista publicou o software mesmo assim — ou seja, fomos pirateados em escala nacional, sem ter como reagir. Pra nós, ma ação judicial era inviável.
Montamos também um esquema de vendas on-line. Alugamos uma caixa postal, compramos um celular (tijolão da Motorola, caro para padrões da época) e criamos uma espécie de empresa virtual. O site recebia pedidos, enviávamos o preço, pedíamos depósito bancário e mandávamos a caixinha pelo correio. Funcionava, mas era improvisado. Nessa época, o Rick ficou praticamente sozinho na operação: eu estava em Campinas fazendo mestrado, o Tim também tinha seus compromissos. Ele segurou as pontas como pôde.
Foi então que a Netscape lançou, dentro do Netscape Navigator Gold Edition, um editor completo de HTML. Era infinitamente melhor que nossa solução baseada em wizards. E era grátis. Não havia competição possível. Ficou claro que o Expert Home Page não sobreviveria.
Assim, a Expert Solutions foi morrendo — não por falência, mas por abandono. Cada um seguiu seu caminho. A empresa continuou existindo formalmente por alguns anos, quase sempre inativa. Cheguei a usá-la como PJ em alguns trabalhos, mas isso já não tinha relação com o propósito original.
E foi assim que terminou a minha aventura empreendedora.
Notas:
- Uma curiosidade: Um site feito com o Expert Home Page ainda está online na Internet: https://mosqueteiro.tripod.com/
- Veja um vídeo do Expert Home Page em ação.
Conselhos que ninguém pediu mas que vou escrever mesmo assim:
- Acho que a grande lição que fica da Expert Solutions é a necessidade de correr riscos e ter dedicação para poder fazer uma empresa decolar. No nosso caso, os três sócios tinham outros planos, que não queríamos mudar pra pode nos dedicarmos à empresa. O medo de arriscar perder o controle da empresa para um sócio majoritário também nos fez passar uma oportunidade rara, ao invés de negociarmos com o investidor. Havia uma possibilidade de sinergia, com o investidor trazendo sua experiência empresarial e nós com a nossa capacidade técnica.