Tarbalho Prático

Além do trabalho de montar uma rede para a UFLA e de tentar iniciar alguma coisa em pesquisa em ciência da computação, é óbvio que o principal foco do grupo era o ensino. Como o curso ainda estava muito no começo, havia umas poucas disciplinas específicas de computação. Eu e o Monserrat dávamos aula nos três primeiros semestres, então desde o início tivemos de estruturar os cursos e montar nossas aulas, como já comentei em um capítulo anterior.

Além das disciplinas de computação e das matérias de ciências exatas que já existiam na universidade, a grade incluía também uma disciplina de inglês. Considerando que, no Brasil, a maioria dos alunos sai do ensino médio com um nível de inglês entre médio e fraco, isso fazia todo sentido: inglês é essencial para qualquer carreira em informática. Outras universidades também tinham algo parecido. O problema é que, diferentemente de uma UFMG ou de uma Unicamp, a UFLA não tinha um departamento de inglês. Não havia professores disponíveis para ministrar essa disciplina.

Depois de alguma negociação em nível de departamento e reitoria, ficou decidido que alguém da computação teria de assumir o curso. Acabou sobrando para mim. Fiquei responsável por preparar e ministrar a disciplina de inglês para a turma de computação.

Eu me lembrei do curso de inglês instrumental que tinha feito na época do Coltec. Era um curso focado em objetivos bem específicos, principalmente na leitura de textos não literários: notícias, manuais, textos técnicos. Como era apenas um semestre, achei que essa metodologia se encaixava bem. Comprei alguns livros de inglês instrumental voltados para informática e ciências exatas e montei o curso a partir deles. O material era didático e permitia que os alunos evoluíssem na leitura. A turma era bastante heterogênea: havia alunos que não sabiam praticamente nada e outros que já tinham algum domínio do idioma.

Como o foco era leitura, os exercícios giravam em torno de entender textos em inglês. Naquela época começavam a surgir ferramentas que prometiam ajudar nisso, como o Google Tradutor. Ainda era rudimentar, a tradução era meio capenga, mas já ajudava a entender os textos. Fiz questão de deixar claro que o tradutor não deveria ser usado para entregar os trabalhos.

Vários trabalhos consistiam em pegar um texto em inglês e produzir um resumo em português explicando o conteúdo. Um dos últimos trabalhos foi um pouco mais ambicioso: cada aluno deveria escolher um texto diferente na área de informática e produzir uma tradução para o português. Não precisava ser uma tradução perfeita, mas o texto em português tinha de cobrir todos os tópicos do original, que deveria ter pelo menos duas páginas.

Na correção desses trabalhos, notei um caso curioso. Um aluno entregou um texto em português muito bem escrito. Fui conferir o texto original, como fazia com todos. O inglês estava péssimo, completamente macarrônico. Tentei encontrar a fonte do texto, sem sucesso. Resolvi então procurar no Google por trechos do texto em português. Encontrei. Joguei o texto em português no Google Tradutor e o resultado foi exatamente o suposto texto original em inglês que o aluno havia entregado. Ele tinha feito o caminho inverso: traduziu do português para o inglês e apresentou aquilo como original. Obviamente, tirou zero.

Corrigir trabalhos trazia uma certa satisfação, mas também bastante frustração. O esforço que alguns alunos colocavam para burlar regras ou evitar o trabalho era impressionante. Em um trabalho de programação, recebi duas entregas praticamente idênticas. Tão idênticas que ambas continham o mesmo erro de digitação na capa: Tarbalho Prático. Esse foi fácil de identificar. Outros tentavam trocar nomes de variáveis ou outros detalhes, mas o plágio era evidente.

Pra esses casos, eu defini uma regra simples: eu atribuía a nota ao trabalho e depois dividia pelo número de pessoas que haviam “colaborado”. Essa seria a nota final de cada um. Caso identificassem quem realmente tinha feito o trabalho, essa pessoa ficaria com a nota integral. Isso gerou um certo bafafá. Alguns alunos reclamaram ao coordenador e ao chefe do departamento, e eu fui chamado para explicar. Mostrei os trabalhos copiados e, apesar de acharem que eu poderia pegar um pouco mais leve, respeitaram minha decisão em nome da liberdade acadêmica.

A última história envolvendo trabalhos em Lavras foi em uma disciplina de algoritmos de ordenação. Era praticamente o mesmo trabalho que eu tinha feito na UFMG: implementar os algoritmos, rodar com entradas de tamanhos diferentes e medir tempos de execução. O objetivo era observar como esses tempos evoluíam e relacioná-los à complexidade de cada algoritmo. Não era um trabalho conceitualmente difícil, mas exigia tempo e paciência. Avisei isso claramente.

Como era de se esperar, vários deixaram para a última hora e passaram noites no laboratório rodando os testes. A maioria entregou e fez o trabalho corretamente. Mas teve um aluno que entendeu tão pouco o objetivo que, quando pedi gráficos para analisar os tempos, ele me entregou gráficos de pizza. Até hoje não sei como ele pretendia tirar qualquer conclusão daquilo.