A mala musical

Enquanto eu trabalhava, também tentava continuar o meu doutorado, lembra dele? Não era fácil conciliar o trabalho, a vida em família e a pesquisa. Havia momentos em que parecia que o tempo simplesmente não era suficiente, mas eu continuava tentando.

Lia artigos, trocava e-mails e fazia ligações com o meu orientador. De vez em quando, ia até Campinas para conversar com ele pessoalmente. O progresso era lento, mas existia. Conseguimos publicar alguns artigos em congressos, tanto no Brasil quanto no exterior. Na maioria das vezes, eu usava férias ou pedia autorização no trabalho para apresentar os artigos. Isso vinha desde o período em que eu ainda estava em Lavras. Ao longo dos anos, fui a congressos nos Estados Unidos, na Espanha, em São José dos Campos, em Florianópolis e em outros lugares.

Em 2004, houve um congresso na Filadélfia sobre sistemas multiagentes, e o nosso artigo sobre Optimistic Blinded Key Signatures foi aceito. Eu já tinha ido a Nova Iorque pela Inteligenesis, então resolvi aproveitar a viagem e passar alguns dias por lá. Planejei ficar uma semana na Filadélfia para o congresso e, depois, mais uma semana em Nova Iorque por conta própria. O meu orientador tinha verba para custear as passagens e a hospedagem durante o congresso.

Chegando ao hotel na Filadélfia, começaram os perrengues. O hotel não conseguia processar a cobrança das diárias no meu cartão de crédito brasileiro. Liguei várias vezes para o banco e para a Gisele tentando entender por que a transação estava sendo negada. Houve um momento em que achei que me colocariam para fora, mas, no fim, deu certo e o pagamento foi aceito.

O congresso foi interessante. Conheci pesquisadores e estudantes da área e aproveitei para conhecer um pouco da cidade. Quando terminou, peguei o trem para Nova Iorque. Antes disso, porém, vale um parêntese: brasileiro, quando vai aos Estados Unidos e vê o preço das coisas, tende a comprar tudo o que encontra pela frente. No meu caso, a missão era trazer bugigangas e brinquedos para os meus filhos. Eu e a Gisele entramos no site da Amazon, compramos um monte de coisas e mandamos entregar no hotel onde eu ficaria em Filadélfia.

Quando cheguei e me entregaram aquela pilha de caixas, percebi que teria um problema para levar tudo de volta. Eu tinha uma mala grande, mas o volume das embalagens era muito maior. Passei horas tirando os brinquedos das caixas para reduzir o espaço e fazer caber tudo. A mala ficou absurdamente pesada. Para levá-la até o trem foi um esforço considerável. O detalhe mais curioso era que, sempre que a mala balançava, algum brinquedo era acionado e começava a tocar música. Ainda assim, lá fui eu de trem da Filadélfia para Nova Iorque com a minha mala musical.

Os hotéis em Nova Iorque eram caríssimos para a nossa realidade na época. Procurei alternativas e alguns amigos sugeriram ficar na YMCA. As acomodações eram simples, mas muito mais baratas do que hotéis convencionais. Me indicaram a unidade em Manhattan, perto da sede das Nações Unidas, mas descobri uma outra no Brooklyn, no bairro de Greenpoint, próxima a uma estação de metrô. Como era mais em conta, escolhi a do Brooklyn.

Desci do trem na Penn Station e segui de metrô até Greenpoint. A região era um pouco decadente, mas havia uma delegacia de polícia em frente ao hostel, o que pelo menos dava uma sensação de segurança. O quarto era minúsculo e o banheiro compartilhado. Por precaução, levei meus chinelos para tomar banho. Até hoje brinco que era um hotel de categoria cinco cruzinhas, em contraste com as quatro estrelas do congresso.

Passei uma semana em Nova Iorque. Visitei museus, andei bastante pela cidade e continuei comprando os itens que estavam na lista. Em determinado momento, tive de comprar uma mala ainda maior para conseguir transportar tudo. Como a hospedagem na YMCA não era exatamente confortável, resolvi encurtar a estadia e passar a última noite em um hotel perto do aeroporto.

Naquela época, o acesso à internet ainda era complicado. Fui até a biblioteca pública de Nova Iorque na 5a avenida, onde era possível usar computadores com acesso gratuito à internet mediante agendamento. De lá consegui reservar uma noite em um hotel próximo ao aeroporto de Newark e verificar como chegar até lá.

No albergue não havia televisão no quarto, então eu tinha pouco contato com as notícias. Pegava jornais gratuitos distribuídos no metrô, muitas vezes abandonados nos bancos. Em um deles, li sobre a possibilidade de um furacão atingir os Estados Unidos nos próximos dias. Não dei muita importância, já que não parecia que chegaria a Nova Iorque.

No penúltimo dia da viagem, fechei as malas e segui para o hotel próximo ao aeroporto. A mala estava pesadíssima. Um hóspede do albergue me ajudou a descer os três andares de escada. Depois me virei no metrô e no trem até o hotel. O quarto era bem melhor, com banheiro privativo e televisão. Ao ligar a TV, vi a cobertura tradicional da CNN sobre furacões, com repórteres no meio da chuva e do vento. Foi então que percebi que o furacão havia atingido Miami em cheio. E a minha passagem de volta saía de Nova Iorque com conexão em Miami antes de seguir para o Brasil. Naquele momento caiu a ficha: talvez eu não conseguisse embarcar no dia seguinte.Liguei para a companhia aérea. A resposta foi direta: o aeroporto de Miami estava fechado por tempo indeterminado. Seria preciso aguardar a reabertura para reagendar os voos. Disseram para eu ligar novamente no dia seguinte.

Estava confirmado: não voltaria para casa na data prevista. Fui à recepção do hotel tentar estender a estadia, mas não havia disponibilidade. O hotel estava lotado. Fiquei com um problema imediato: onde dormir na noite seguinte. A região tinha vários hotéis de redes populares americanas. Ao lado havia um Motel 6, daqueles de filme em que o carro para em frente ao quarto. Fui até lá e consegui uma vaga para o dia seguinte. Mudei de hotel, voltei a Nova Iorque para visitar o Museu de História Natural e, à noite, liguei novamente para a companhia aérea. O aeroporto de Miami continuava fechado.

No terceiro dia de espera, acumulando diárias e refeições em dólar (Um furacão na nossa conta bancária, como dizia a Gisele), resolvi ir até o aeroporto tentar resolver pessoalmente. No balcão de check-in, obviamente, não me deixaram embarcar. O atendente sugeriu que eu ligasse para o call center e pedisse alteração de rota. Fui até um telefone público, liguei e consegui um voo com conexão em Boston. Voltei para a fila e, por coincidência, fui atendido pela mesma pessoa. Ele tentou fazer o check-in, mas o sistema não deixou: a conexão em Boston era muito curta e não haveria tempo de transferir a bagagem. Tive de ligar novamente.

Na segunda tentativa, a atendente conseguiu um voo via Dallas. Havia uma troca de aeroporto em São Paulo, e a atendente resistiu um pouco antes de fazer a reserva. Cheguei a pensar que, se fosse preciso passar alguns dias em São Paulo ou até pegar um ônibus para Brasília, não haveria problema. No final, ela encontrou uma combinação que funcionava: voo via Dallas, troca de aeroporto em São Paulo e destino final em Brasília. Voltei à fila mais uma vez e fui atendido, novamente, pelo mesmo funcionário. Ele conseguiu concluir o check-in, mas minha mala estava acima do peso. Como era a terceira tentativa com ele, acho que resolveu aliviar e deixou passar. Assim partiu a minha mala musical.

Depois de uma conexão em Dallas e da troca de aeroporto em São Paulo, consegui finalmente chegar são e salvo a Brasília. Nessa altura, o doutorado já caminhava para o final. Mas essa história fica para o próximo capítulo.