Câmara dos Deputados

Enquanto isso, a vida seguia seu curso e o trabalho no Banco Central continuava. Um dos projetos mais recentes da área de TI do banco era a implantação de ITIL. Tivemos vários treinamentos para entender o que era ITIL e logo começou um grande projeto dedicado à implantação de uma ferramenta capaz de gerenciar todos os aspectos de service management previstos nesse modelo, organizando principalmente os ciclos de incidentes e problemas dentro do Banco Central.

A ferramenta escolhida era da HP. Era extremamente completa, mas justamente por isso também bastante complexa. Havia uma enorme quantidade de campos, categorias e decisões necessárias para a implantação da ferramenta que antes simplesmente não existiam. Muitas dessas definições acabavam sendo feitas meio no feeling, sem muito embasamento, principalmente pela falta de experiência prática no uso de ITIL. Isso levou à criação de workflows que talvez fossem mais complexos do que o necessário e a uma definição extremamente minuciosa de todas as possíveis classificações para cada registro na ferramenta, como incidente, problema e outros.

Do ponto de vista do analista que precisava usar o sistema no dia a dia, era necessário gastar um tempo enorme apenas preenchendo todos aqueles campos. Isso naturalmente gerou alguma resistência ao uso da plataforma. O fato de que o front-end da ferramenta era uma aplicação Java que rodava localmente na máquina do usuário, em vez de uma interface web como começava a se tornar comum na época, também não ajudava muito.

Eu me lembro de que foi um projeto grande e demorado, mas a ferramenta finalmente foi implantada e todos passaram a ser obrigados a utilizá-la. No grupo de segurança eu fiquei responsável pela parte de “problemas”, que nós definíamos de forma um pouco simplificada como incidentes repetidos ou de maior gravidade. Isso não tomava tanto tempo do meu trabalho, mas também me obrigava a acompanhar todos os incidentes reportados pelo time de segurança ou direcionados a ele. Ao mesmo tempo, foi uma oportunidade de estudar um pouco mais sobre ITIL e seus processos.

Foi mais ou menos nessa época que voltou à tona um desejo antigo que eu tinha: levar minha família para ter uma experiência no exterior. Essa ideia já existia desde o período em que comecei a pensar em fazer doutorado, algo que mencionei no capítulo “O Doutorado”. Uma das primeiras tentativas que fiz foi por meio de um convênio entre o Banco Central e o BIS (Bank for International Settlements), uma organização internacional formada por diversos bancos centrais. Eu me inscrevi, mas não fui selecionado. Provavelmente isso aconteceu porque eu ainda tinha pouco tempo de casa e também porque me faltava o chamado “apoio político” dentro do banco para conseguir algo desse tipo.

Também tentei algumas oportunidades na iniciativa privada. Candidatei-me a algumas vagas e até consegui algumas entrevistas. Uma delas foi na PwC inglesa, que marcou a primeira vez que fiz uma entrevista por videoconferência em uma sala de reuniões cheia de equipamentos especializados. Até então, esses contatos costumavam acontecer apenas por telefone. Em outro momento, participei de um processo do Google para a área de segurança. Cheguei a fazer a entrevista por telefone, mas não passei para a próxima fase.

De qualquer forma, essas entrevistas serviram para eu entender melhor como esse tipo de processo funciona. Até hoje eu e a Gisele costumamos dizer que é sempre importante fazer uma entrevista de emprego de vez em quando, talvez uma vez por ano ou a cada dois anos, nem que seja apenas para se manter afiado nesse tipo de conversa.

Como estávamos em Brasília, e eu já falei antes da cultura do concurso público que existe na cidade, acabávamos sabendo dos concursos que estavam acontecendo mesmo sem acompanhar isso de forma muito ativa. No serviço público federal existem basicamente duas formas de ter melhorias na carreira, ou seja, aumentos mais significativos de salário.

A primeira é dentro do próprio órgão em que se trabalha, por meio da obtenção de cargos comissionados. Uma função comissionada normalmente corresponde a um aumento de salário, mas quase sempre vem acompanhada de maior carga de trabalho ou de mais responsabilidade. Além disso, existe sempre a dependência de a chefia querer manter você naquela posição. E, como em qualquer organização, há um funil: não existe cargo de chefia para todo mundo.

A outra forma é prestar concurso para um órgão que pague melhor. Existem alguns órgãos que historicamente oferecem salários mais altos do que outros dentro da administração federal. Embora exista uma cláusula constitucional dizendo que servidores públicos deveriam receber salários equivalentes ao desempenhar funções semelhantes, na prática isso não acontece. As carreiras costumam ser definidas em função do órgão em que se trabalha e não do tipo de trabalho realizado. Isso significa que o Banco Central tem sua própria estrutura de carreira e sua própria tabela salarial, enquanto a CGU tem outra, mesmo que as duas tenham profissionais fazendo trabalhos muito parecidos, como na área de informática.

Existem também alguns concursos que são conhecidos por serem raros, ou seja, acontecem com intervalos muito grandes. Às vezes passam cinco ou até dez anos entre um concurso e outro. Quando um desses concursos é anunciado, ele costuma ser visto como uma oportunidade única, muitas vezes imperdível.

Foi o que aconteceu quando eu ainda estava no Banco Central: a Câmara dos Deputados anunciou um concurso que incluía vagas para analista de informática. Historicamente, a Câmara pagava melhor do que o Banco Central. Além disso, representava uma forma de diversificar a renda familiar, já que órgãos públicos às vezes demoram bastante para conceder reajustes salariais e esses reajustes nem sempre acontecem ao mesmo tempo para todos os órgãos. Como eu e a Gisele trabalhávamos no mesmo órgão, havia o risco de que nossos salários ficassem defasados ao mesmo tempo. Se estivéssemos em órgãos diferentes, aumentava a chance de que pelo menos um dos dois salários se mantivesse em um patamar mais interessante.

Além disso, havia também a influência da própria cultura da cidade. Então eu e meu irmão fomos fazer esse concurso, assim como vários conhecidos. Alguns deles eu já sabia que fariam a prova; outros eu encontrei lá mesmo no dia. No final, eu acabei sendo aprovado no concurso da Câmara dos Deputados. A partir daí veio a decisão: eu realmente queria fazer essa mudança? Pensei um pouco, conversei com alguns colegas que já trabalhavam lá e acabei decidindo que tomaria posse assim que fosse chamado.

Conversei também com meu chefe. Como era serviço público, não havia muito que ele pudesse oferecer para tentar me convencer a ficar. Ele chegou a me oferecer uma viagem para o congresso da RSA naquele ano, que era basicamente tudo o que estava ao alcance dele. Aquilo acabou sendo um sinal de que ele realmente tinha gostado do meu trabalho.

E assim eu parti para a minha próxima aventura: analista de informática da Câmara dos Deputados. Mas essa já é uma história para o próximo capítulo.