Furacão Sandy - A evacuação

Em outubro de 2012, a minha mãe resolveu visitar a gente em Nova Iorque. Como ela ia passar mais ou menos um mês por lá, preferiu ficar em um apartamento tipo Airbnb só para ela. O apartamento era perto de onde a gente morava, dava uns dez minutos de caminhada. No final de outubro, já estava quase na época dela ir embora e começaram a aparecer na TV notícias sobre um furacão que estava causando estragos no Caribe e que tinha grandes chances de atingir a costa leste dos Estados Unidos. É raro um furacão chegar até Nova Iorque, mas acontece.
Nas últimas semanas de outubro, começaram a surgir notícias de que o furacão Sandy tinha grandes chances de passar por Nova Iorque e houve uma grande movimentação de preparação para a sua chegada.
A ONU tem uma grande preocupação com a segurança física dos funcionários e começou a nos orientar como deveríamos nos preparar para a chegada do furacão. Uma das coisas que sugeriram foi ter à mão lanternas, pilhas, rádio de pilha e água. A gente comprou algumas dessas coisas e deixou numa gaveta. No trabalho, ainda não havia muita preparação para esse tipo de evento, nem sistemas de comunicação adequados para coordenação remota. A ONU dependia bastante do sistema telefônico, baseado em VoIP, mas limitado aos escritórios, e de BlackBerrys como principais meios de comunicação. Um colega mais prevenido organizou uma reunião no Webex para que pudéssemos nos falar se houvesse alguma necessidade. Essa foi toda a preparação que tivemos para a chegada do furacão.
Durante o final de semana, a Gisele saiu para fazer algumas compras e eu fiquei em casa com as crianças. Eu estava acompanhando as notícias na TV quando vi o anúncio do prefeito de Nova Iorque sobre a ordem de evacuação, inclusive para Manhattan, onde a gente morava. A cidade tinha áreas definidas em três categorias em relação ao risco de inundação. As áreas de alto e médio risco deveriam ser evacuadas. Como a gente morava bem na beira do rio, o nosso prédio foi considerado área de alto risco e estávamos incluídos na ordem de evacuação. Áreas classificadas como baixo risco estavam fora da zona a ser evacuada. Também foi anunciado que metrô e ônibus iriam parar e que todas as pontes e túneis de acesso à ilha seriam fechados.
Como a Gisele ainda não estava em casa, comecei a preparação com os meus filhos. Fizemos as malas, pegamos algumas coisas que achávamos que iríamos precisar nos próximos dias e também alguns documentos. Comecei a pesquisar hotéis fora das áreas a serem evacuadas. Consegui encontrar um hotel no centro da ilha, o Hotel Pennsylvania, que ficava em uma área de baixo risco e tinha disponibilidade de quartos, inclusive quartos familiares, onde poderíamos ficar todos juntos, saindo um pouco mais barato. Fiz uma reserva para três dias, que era o tempo previsto para a passagem do furacão.
Quando a Gisele chegou, já estávamos prontos. Foi só pegar as coisas e seguir de ônibus para o hotel. O hotel era enorme e bastante movimentado, em frente à Penn Station, uma região normalmente cheia de gente e carros o tempo inteiro. Chegamos no meio da tarde e ficamos no quarto até o início da noite, quando resolvemos sair para comer alguma coisa. Entre a nossa chegada e a saída para jantar, a situação mudou bastante. Já havia pouca gente na rua, as ruas estavam praticamente sem carros e o vento estava forte o suficiente para quase arrastar a minha filha, que tinha 11 anos na época. Era o início do furacão. Muitas lojas e restaurantes já estavam fechados, o que era incomum para aquela região. Conseguimos comer algo do tipo fast food e voltamos para o hotel, já que a recomendação era não ficar do lado de fora. No quarto, ouvíamos o vento batendo na janela e víamos a chuva, mas era só isso.
No meio da noite, o meu celular tocou: era o pessoal do trabalho. O furacão estava causando inundações por toda a ilha e, como o prédio sede da ONU fica na beira do rio, a água já estava começando a entrar nos andares mais baixos. A informação naquele momento era de que a água já havia chegado ao andar logo abaixo do Data Center e continuava subindo. Havia uma equipe do Network Operations Center (NOC), que trabalhava em turnos 24 por 7 dentro do Data Center. Com a cidade toda fechada, esse pessoal ficou preso lá, sem possibilidade de sair.
Assim que me informaram da situação, arrumei um canto no quarto, enquanto todos dormiam, e conectei o notebook a uma internet via celular. Entrei no Webex e uma boa parte da equipe já estava por lá. Nem todos conseguiram entrar, porque havia muita gente sem luz ou sem internet. A situação era caótica. A água continuava subindo e a decisão foi desligar todo o Data Center e migrar o que fosse possível para o Data Center secundário. A capacidade do secundário era menor, então não dava para migrar tudo. Era preciso escolher.
No meio da confusão, decidiu-se migrar os sistemas relacionados à gestão financeira, que naquele momento consideramos os mais importantes. Depois da passagem do furacão, ficou claro que essa decisão não foi a mais acertada, mas naquele momento focamos todos os recursos nessa migração. À medida que o tempo passava, vinham mais notícias de que a água continuava subindo. Em certo momento, disseram que faltavam apenas 50 centímetros para alcançar o nível do Data Center. Começamos então a desligar tudo o que fosse possível, mesmo sem completar a migração. Se a água entrasse no Data Center, seria um desastre, além do risco para as pessoas que estavam lá.
O desligamento das máquinas acontecia em duas etapas. Primeiro, colocávamos os sistemas em shutdown. Depois, avisávamos o pessoal que estava fisicamente no Data Center para ir até cada máquina e desconectar o cabo de força, para evitar qualquer problema em caso de inundação. Era um trabalho lento, que exigia enorme coordenação. Toda a comunicação acontecia pelo chat do Webex, criado por um colega e que acabou salvando o dia. Era um chat primitivo e sem muitos recursos, mas era o que tínhamos disponível.
Já era quase de manhã quando alguém avisou que a água havia parado de subir e que não tinha chegado ao Data Center. Foi um alívio, porque ainda não havíamos conseguido copiar todos os dados necessários nem desligar o storage. A cópia estava levando muito mais tempo do que o esperado.
O dia amanheceu e, com a situação um pouco mais calma no trabalho, vários de nós pudemos dar uma pausa. No meu caso, a minha família estava acordando e a gente precisava arrumar um jeito de tomar café e verificar como estava a situação da cidade. Conseguimos tomar café e voltamos para o quarto, porque ainda havia bastante vento e um pouco de chuva. Tentamos fazer contato com a minha mãe, que ainda estava no apartamento que ela havia alugado, mas ela não respondia. Ligamos a TV para ver as notícias e tentar entender como estava a situação da cidade. Foi então que ficamos sabendo que a metade sul de Manhattan estava sem luz. Pela informação que conseguimos, o prédio onde a minha mãe estava ficava na parte sem energia. Isso explicava por que ela não respondia: se não havia luz, provavelmente também não havia internet.
Decidi então ir até o prédio para ver como estava a situação dela. O meu filho, que tinha uns 14 anos na época, foi comigo. No caminho, aproveitamos para ver que comércio estava aberto, para decidir onde comer nos próximos dias. Chegamos à porta do prédio e realmente estava sem luz. Conseguimos entrar e subimos os seis andares de escada até o apartamento da minha mãe. Estava tudo bem, mas ela não sabia para onde ir nem como chegar ao nosso hotel. Eu e meu filho descemos com as malas e levamos a minha mãe para o único lugar possível: o nosso quarto de hotel. Agora, éramos cinco naquele quarto. Ainda estava ok, mas começou a ficar meio apertado.
Ao mesmo tempo, no trabalho, era hora de religar tudo no Data Center principal. A água já tinha baixado e o Data Center estava fora de risco. De novo, o trabalho precisava ser coordenado: era necessário ligar as camadas dos sistemas na ordem correta para evitar problemas. Outra coisa importante foi que o pessoal que estava fisicamente no Data Center conseguiu sair e ser substituído. Deve ter sido um alívio para eles, depois de passar a noite inteira correndo pelo Data Center para desconectar cabos de força de todos os servidores.
A gente tinha sobrevivido ao nosso primeiro furacão. Achamos que estava tudo resolvido e que agora era só esperar a cidade voltar ao normal. Aos poucos, percebemos que ainda iria demorar para as coisas voltarem. Metrô e ônibus que tinham parado ainda não tinham voltado, e não havia previsão. Muitas lojas ainda não tinham conseguido reabrir. Transitar de e para Manhattan ainda estava complicado.
Nota:
- Vídeo de como ficaram as ruas em volta no nosso prédio durante o furacão.
- Veja outras fotos do blackout na New York Magazine