Inteligência Artificial

O doutorado estava caminhando, eu comecei a trabalhar em temas relacionados à tese, e a vida em Campinas tinha se estabilizado. Ao mesmo tempo, vários colegas do DCC/UFMG (incluindo meu irmão) estavam sendo recrutados para trabalhar em uma empresa americana que tinha montado um escritório em Belo Horizonte. Era uma empresa de inteligência artificial chamada Intelligenesis. O objetivo da empresa era montar um sistema de inteligência artificial generalizada (AGI) e aplicar esse sistema ao mercado financeiro. Uma das ideias era montar um fundo de investimentos gerido por inteligência artificial. O grande foco da empresa naquele momento era montar a infraestrutura necessária para treinar e executar essa inteligência artificial. Havia também um foco bastante grande em processamento de linguagem natural, o que quer dizer basicamente ler e interpretar textos escritos em línguas humanas.

A Intelligenesis pagava em dólar, o que fazia com que os salários fossem mais altos que os salários locais. Havia também a promessa de stock options, mas isso dependia do futuro da empresa e da possibilidade de lançar ações na bolsa de valores. Na época, pouca gente entendia esse negócio de stock options. No Brasil, não era comum as pessoas terem isso como parte do salário. A Intelligenesis era vista como uma das empresas .com que tiveram um boom no início dos anos 2000. Hoje, isso seria chamado de startup. A empresa tinha uma grande dependência de investimento para se manter, mas o foco em gestão de fundos de investimento era um grande atrativo para investidores de Wall Street. Até por isso, a sede da empresa ficava em Nova Iorque, bem perto do prédio da bolsa e do World Trade Center.

Uma coisa ficou bastante clara: a Gisele não tinha a menor vontade de voltar para Lavras. Fora da universidade, o mercado de trabalho para alguém que estava fazendo um mestrado em computação era praticamente inexistente. Juntando a nossa vontade de seguir outro rumo com o fato de que a Intelligenesis estava crescendo e contratando, inclusive para áreas de redes, suporte e segurança, comecei a conversar com eles sobre a possibilidade de trabalhar na empresa. Como eu conhecia praticamente todo mundo do escritório de Belo Horizonte, a conversa foi fácil. Houve uma entrevista com o Cássio, que era o chefe de desenvolvimento, e com o Stephan, que estava no mesmo nível e cuidava, entre outras coisas, da área de redes e infraestrutura. A conversa fluiu e eles resolveram me contratar.

Agora, eu só precisava sair da universidade de Lavras. Como eu tinha ficado seis meses de licença, o acordo era que eu teria que devolver o valor dos salários que me foram pagos enquanto eu estava de licença. A gente não tinha muita poupança, e o valor a ser pago era bem significativo para nós. Consegui negociar um pagamento em prestações, o que ajudou bastante a aliviar a pressão sobre o nosso orçamento. Como a Gisele recebia bolsa e o salário que eu iria ganhar na Intelligenesis era melhor, daria para pagar as prestações. Com isso, me desvinculei completamente da Universidade de Lavras e passei a trabalhar remotamente para a Intelligenesis a partir de Campinas. Assim se encerrou a minha primeira experiência como funcionário público no Brasil.

Uma das primeiras tarefas que tive na Intelligenesis foi melhorar a segurança da conexão à internet que eles tinham a partir do escritório de Nova Iorque. Eles tinham apenas um proxy entre a rede interna e a internet, então a ideia era migrá-lo para uma DMZ e configurar um firewall em Linux usando ipchains. Comecei o trabalho fazendo o desenho da rede e as configurações iniciais do ipchains. Enquanto isso, outras pessoas foram contratadas para a área de infraestrutura da empresa, inclusive um gerente, que passou a ser meu chefe direto, e que tinha sido um dos administradores de sistemas do DCC/UFMG desde a época em que tivemos o “incidente telnet”. Outra pessoa contratada foi o Elias, que já tinha experiência com firewall em Linux e deu uma boa melhorada na minha configuração inicial.

Logo depois, a Intelligenesis me convocou para ir até Nova Iorque para passar duas semanas e, não só conhecer melhor a infraestrutura existente na sede da empresa, mas também ajudar a fazer as melhorias necessárias, entre elas o acesso à internet. O plano era trocar os equipamentos que nos conectavam ao provedor de acesso sem precisar de suporte do provedor, porque alguém disse que o suporte deles era muito lento. A parte boa dessa viagem foi ir junto com o Kenji, que também trabalhava na empresa na época e foi meu companheiro de aventuras pela cidade. A Intelligenesis tinha um apartamento para hospedar funcionários, que ficava perto do escritório, mas ele já estava totalmente ocupado na primeira semana da nossa viagem. Então nos mandaram para um hotel, que nos pareceu mais chique e mais longe do que o necessário. A vantagem foi conhecer um pouco mais a cidade. Na segunda semana, fomos transferidos para o apartamento da empresa.

Quanto ao acesso à internet, fizemos o planejamento e marcamos uma data para ficar no escritório à noite e fazer a mudança. Logo no início, detectamos um problema: quando conectamos os novos equipamentos à rede do provedor, mesmo usando o mesmo endereço IP, não havia comunicação com a internet. Éramos quatro técnicos tentando debugar o problema, mas nada funcionava. Até que um dos colegas, um russo que havia sido contratado para o escritório de Nova Iorque, propôs não só copiar o IP, mas também o endereço MAC do equipamento antigo. O endereço MAC é um identificador usado para equipamentos de rede se comunicarem através do protocolo Ethernet e, normalmente, é fixo para cada ponto de acesso à rede. Até aquele dia, eu nem imaginava que era possível trocar o endereço MAC de uma placa de rede, mas o russo dizia que isso era possível no Linux, para certos tipos de hardware. Era uma opção meio desesperada e uma boa gambiarra ao estilo brasileiro, embora tenha sido proposta por um russo. Fizemos essa configuração e funcionou. Na época, eu também não sabia sobre MAC flooding, que poderia ter ajudado a “limpar” as tabelas MAC do lado do provedor e evitar essa gambiarra.

Como tudo parecia estar funcionando, o chefe liberou dois de nós para irmos para casa dormir. Como o apartamento corporativo ficava próximo, eles ligariam se precisassem de ajuda. Na manhã seguinte, acordei um pouco mais tarde e segui para o escritório. Quando cheguei, o chefe estava de cara amarrada. Ele disse que tinha ligado para o apartamento várias vezes e ninguém atendia. Eu não entendi nada, porque o telefone não tinha tocado.

De qualquer forma, tínhamos um problema maior para resolver: o novo acesso à internet estava funcionando para quase todo mundo, exceto para o CTO e fundador da empresa. Ele não conseguia se conectar remotamente via VPN. Ficamos horas tentando entender o que estava acontecendo e analisando capturas de pacotes, mas sem nenhum sinal de progresso. Fazíamos mudanças nas configurações de roteamento e de firewall, mas nada funcionava. Já estávamos em um ponto em que a única opção seria reverter toda a mudança quando, de repente, o CTO conseguiu conectar a VPN. Não sei explicar o que aconteceu com aquela rede, mas aprendi a evitar mudanças unilaterais (i.e. mudar alguma coisa sem coordenar com o outro lado) e que redes de computadores têm uma componente quase esotérica: coisas acontecem e ninguém sabe por quê. Sobre o telefone do apartamento, depois descobrimos que outro funcionário se sentiu no direito de desconectá-lo da tomada para evitar que tocasse à noite, sem avisar ninguém, e acabamos ficando vendidos nessa.

Depois desse aperto, os dias seguintes foram mais calmos e sem outros incidentes. No dia de ir embora, fui ao escritório de manhã para trabalhar até a hora de ir para o aeroporto. Lembro que, em certo momento, o responsável por organizar as viagens me viu por lá e perguntou quando eu voltaria ao Brasil. Respondi que seria naquele mesmo dia, e ele se espantou: ninguém havia avisado, e ele não tinha pedido um carro para me levar ao aeroporto. Ele verificou as passagens, me mandou correr ao apartamento para pegar as malas e disse que mandaria um carro para me buscar. Quando cheguei com as malas na porta do prédio, havia uma limusine parada na rua. Pensei que fosse atrapalhar o carro que viria me buscar e fiquei esperando. Até que o motorista saiu e chamou meu nome. A empresa contratada pela Intelligenesis não tinha mais carros disponíveis e acabou mandando uma limusine. Entrei e seguimos para o aeroporto, só eu naquele carro enorme. O carro tinha até um frigobar, onde encontrei uma garrafa de vidro. Perguntei se era água, e o motorista riu e respondeu, com um sotaque meio russo: “É vodka, mas pode beber se quiser.” Deixei para lá, só pioraria a minha sede.

Apesar da correria, cheguei a tempo ao aeroporto e embarquei de volta para Campinas. Era hora de seguir a vida, cuidar da família e continuar o doutorado.