A Carona

Antes de ir para Campinas, eu precisava achar um lugar para dormir por uns dias. Com o dinheiro contado, não tinha como pagar hotel. Minha mãe tinha um amigo, nosso contemporâneo da época em que moramos na França, que era professor de Física na Unicamp. Ela ligou para ele, e ele disse que eu poderia ficar alguns dias em sua casa até me organizar. Eu tinha o endereço, o nome e o telefone. A ideia era passar uns dias lá, fazer a matrícula e depois voltar a Belo Horizonte para preparar a mudança definitiva.
No fim do primeiro dia, depois de resolver tudo na universidade, era hora de seguir para a casa dele. O bairro era o Novo Cambuí. Perguntei ao pessoal da secretaria que ônibus eu deveria pegar; ninguém sabia ao certo. Depois de muita gente dar palpite, uma aluna do mestrado, que estava por perto e ouviu a conversa, se ofereceu para me dar carona. Combinamos de nos encontrar na porta do Instituto no final da tarde.
Seguimos para Campinas e o caminho realmente parecia nos levar para fora da cidade, pela mesma estrada que o ônibus usou pela manhã. Depois de um tempo, achamos a rua. Verificamos as placas e o nome estava certo. Entramos e começamos a procurar o número. Percorremos a rua inteira e nada. Voltamos, conferimos de novo, nada. A rua terminava numa praça. Parecia que o número simplesmente não existia.
Tentamos encontrar um orelhão para ligar, mas não havia nenhum. A moça parou numa farmácia para perguntar, e disseram que era aquela rua mesmo. Voltamos mais uma vez e continuamos procurando. Já tinha passado mais de meia hora. Ela estava fazendo um grande favor: tinha mudado completamente seu caminho só para me ajudar. Finalmente achamos um orelhão, liguei para a casa e eles explicaram: “sim, é essa rua mesmo; quando chega na praça, a rua continua depois, com o mesmo nome e a numeração segue”. Ou seja, a rua era dividida pela praça. A carona me deixou na porta e, sinceramente, eu nunca esqueci daquela gentileza.
Mas a história não terminou ali. Na segunda noite, os meus anfitriões perceberam que minha estadia seria complicada. Além do casal, moravam na casa a filha mais velha, o marido e duas crianças. Então pediram para o filho mais novo — que era quase da minha idade — me hospedar. Ele morava sozinho e se dispôs a me receber. O apartamento era pequeno mas ficava perto do centro, tinha um sofazinho onde eu podia dormir, e foi lá que fiquei.
Passei três dias circulando pela Unicamp e pelos arredores do campus, visitando imobiliárias, conversando com pessoas que alugavam quartos e tentando decidir onde eu moraria quando voltasse de vez. No terceiro dia, o genro do professor — conhecido como Boy — me disse que haveria uma festa na república em que ele morou e me convidou para ir com ele. Era uma boa chance de conhecer gente e talvez conseguir um lugar pra morar.
A festa foi ótima, o pessoal da república me recebeu super bem, mas só tinham disponível um quartinho nos fundos, numa casinha separada, mas com pia e privada. Topei na hora e já combinamos a mudança. Assim começaram minhas aventuras na República Falcão, onde morei por um ano enquanto fazia o mestrado em Campinas.