Dizia ele: Estou indo pra Brasília

Estava tudo indo muito bem. Eu tinha um bom emprego e estava relativamente prestigiado dentro da empresa. Ainda assim, ao frequentar congressos e conhecer pessoas de outras empresas da área, eu me pegava pensando em como seria trabalhar em outros ambientes. A grama do vizinho é sempre mais verde, né não?
Naquele período, começaram a surgir no mercado brasileiro várias empresas dedicadas exclusivamente à segurança da informação. Algumas ainda existem, outras desapareceram ou foram incorporadas por grupos maiores. Uma dessas empresas tinha uma atuação particularmente forte em criptografia, justamente a minha área de formação. Isso me atraía bastante e eu desejava trabalhar mais próximo desse tema. Vale lembrar que, nessa época, eu ainda tentava concluir o doutorado. Trabalhava durante a semana e, nas horas vagas e nos fins de semana, lia artigos, escrevia aos poucos e mantinha uma produção acadêmica que avançava devagar, mas resultou em publicações em congressos nacionais e internacionais.
Meu mestrado tinha sido em criptografia, o doutorado também. Era natural que eu quisesse seguir profissionalmente nessa área. Fiquei sabendo que essa empresa estava contratando — não lembro se por anúncio ou indicação — e me inscrevi. Havia duas vagas abertas: uma para engenheiro e outra para gerente. Como eu já era engenheiro sênior na BMS, resolvi me candidatar à vaga de gerente, vendo ali uma possível evolução de carreira.
Entrei em contato com a empresa, fui chamado para entrevistas e cheguei a ir a São Paulo para conversar pessoalmente. O processo seletivo incluiu entrevista, teste psicotécnico, teste grafológico e alguns outros testes que, na época, me pareceram um tanto esotéricos.
Algum tempo depois, recebi o retorno: eles achavam que eu ainda não estava pronto para a vaga de gerente, mas queriam me oferecer a vaga de engenheiro. Havia, no entanto, uma condição importante: eu teria que me mudar para São Paulo. Isso significava sair de Belo Horizonte com a família inteira. Nós já tínhamos dois filhos, e seria uma mudança radical para todos. Recebi a proposta e pedi um tempo para pensar. Expliquei que meu filho precisaria passar por uma cirurgia, já agendada, e que eu precisava esperar pelo menos dois meses até atravessarmos aquela fase antes de tomar qualquer decisão.
Durante esse intervalo, mesmo depois de ter aceitado a vaga, começamos a “assuntar”, como se diz em Minas. Passamos a perguntar como era morar em São Paulo: onde moraríamos, como seria a vida com as crianças, se o salário cobriria aluguel e despesas. Muitas das pessoas com quem conversamos não nos passaram segurança de que São Paulo seria um lugar agradável para criar nossos filhos. Já tínhamos vivido em Campinas e tido experiências próximas com violência. Os relatos sobre São Paulo eram ainda mais preocupantes.
Chegaram a nos contar histórias de mulheres que colocavam um boneco no banco do passageiro para simular a presença de um homem no carro e evitar assaltos. Ao mesmo tempo, nós levávamos uma vida confortável: tínhamos a nossa casinha, com um quintalzinho, em um ambiente tranquilo. Tivemos a sensação de que perderíamos isso e que a mudança não seria positiva para as crianças. No fim, tive que vencer a vergonha e a timidez e ligar para a empresa dizendo que não iria mais. Eu já havia aceitado a proposta e estava prestes a pedir demissão da BMS, mas liguei e disse que não daria. Foi constrangedor. Voltar atrás da palavra não foi fácil. Provavelmente fiquei queimado com aquela empresa, e nunca soube até que ponto isso circulou no mercado.
Muitas vezes pensei sobre essa decisão. O que teria acontecido se eu tivesse aceitado a vaga e mudado para São Paulo? Minha vida certamente teria sido muito diferente. Talvez eu tivesse me adaptado e até gostado da cidade — conheço várias pessoas que foram e gostam. Mas a decisão foi não ir. Esse foi um daqueles momentos em que a linha da vida bifurca de forma definitiva. Um caminho que, uma vez não seguido, não pode mais ser retomado, como na figura que ilustra a página inicial deste site.
Continuei na BMS. Meu filho fez a cirurgia e correu tudo bem. A vida voltou ao normal. Alguns meses depois, fomos visitar uns amigos que moravam em Brasília. Eu já conhecia a cidade, pois tenho família lá. Desde a infância, Brasília fazia parte do trajeto entre Belo Horizonte e Belém, onde meu pai morou por muitos anos. Costumávamos passar por lá quase todo verão, ainda que por poucos dias.
Dessa vez, fomos em família. Nossos amigos nos receberam, nos levaram para conhecer a cidade, passeamos com as crianças, fomos ao zoológico. Passamos um feriado prolongado em Brasília. No último dia, enquanto nos preparávamos para voltar, a Gisele me perguntou: “Vamos mudar para cá?”. Eu falei assim: “Como? A gente não tem emprego aqui. Não tem nada.” Na época ela estava querendo mudar de emprego e a resposta dela foi: “Mas isso aí a gente arruma.” A minha reação foi: “Tá, se a gente arrumar um emprego pagando bem aqui a gente pode pensar em mudar.” A gente conversou a respeito e nos pareceu que era um bom lugar pra viver com os filhos, pra crianças crescerem.
Começamos então a buscar oportunidades. O marido desse casal de amigos trabalhava em uma empresa que terceirizava mão de obra de TI para o BRB, o banco estatal do Distrito Federal. Mandamos nossos currículos e ele os apresentou internamente. Fomos chamados para conversar, os dois. No final, fizeram propostas para nós dois: a Gisele trabalharia na área de desenvolvimento e eu ficaria na área de infraestrutura e segurança, mais especificamente segurança de redes. Os salários não eram ruins, mas o regime era de pessoa jurídica, com todas as implicações em relação a férias, décimo terceiro e direitos trabalhistas.
Mesmo assim, aceitamos. Foi assim que, como fez João de Santo Cristo, resolvemos ir para Brasília. Acreditávamos que seria melhor para as crianças (e realmente foi) e, além disso, os dois estariam empregados, o que facilitava muito a questão financeira. Foi assim que decidimos, ao invés de irmos pra São Paulo, nos mudarmos para a capital federal.