O início do Mestrado

Logo definimos o tema da tese de mestrado. Como a Expert Solutions estava tentando iniciar uma operação de comércio eletrônico, comecei a estudar formas de pagamento na internet. Até então, só se usavam duas opções igualmente ruins: mandar o número do cartão de crédito e torcer para que ele não fosse usado indevidamente, ou fazer um depósito em conta e enviar o comprovante. Nenhum desses métodos era seguro. Foi assim que descobri o universo dos sistemas de pagamento eletrônico — e vale lembrar que, naquela época, ainda não existiam blockchains ou bitcoin, que só seriam inventados muitos anos depois.
Conversei com meu orientador e resolvemos fazer uma revisão bibliográfica como preparação para o projeto de tese. Em breve, eu teria de apresentar esse projeto a uma banca para conseguir aprovação e seguir no programa. Foi um período de muita leitura e muito aprendizado. Descobri sistemas considerados revolucionários: o eCash, que prometia pagamentos totalmente anônimos; o SET, que tinha acabado de ser publicado pelas grandes bandeiras de cartão de crédito; e diversos sistemas de micropagamentos, que permitiam pagar centavos ou frações de centavo. A ideia era usar esse micropagamentos para pagar para acessar conteúdo na internet. A era da publicidade na Internet ainda estava bem no início.
Para trabalhar com criptografia no meio acadêmico, era essencial dominar o LaTeX, o sistema usado para escrever artigos - especialmente os que envolviam fórmulas matemáticas. Usar Word era inviável. Então precisei aprender LaTeX e me aprimorar na escrita de expressões matemáticas. Cheguei a usar símbolos fora do padrão, criados pela composição de dois ou mais símbolos sobrepostos, em um artigo sobre uso de métodos formais na análise de protocolos. Nessa época eu já estava bem proficiente no LaTeX e ainda encontrei um programa que servia como interface gráfica, o que ajudou bastante na escrita desses artigos.
Ao aprender LaTeX, descobri que ele foi criado pelo Lamport e, em uma das disciplinas do mestrado, estudamos o protocolo de Lamport para sincronização em sistemas distribuídos. O LaTeX foi construído sobre o TeX, desenvolvido por Donald Knuth, autor do clássico The Art of Computer Programming. Era curioso perceber que eu estava, de certa forma, em boa companhia nessa jornada.
Um problema prático na escrita dos artigos e dos capítulos da tese era a infinidade de versões. Eu revisava, meu orientador revisava, e logo surgiam arquivos com nomes como “capitulo1_revisado_final_mesmo.tex”. Como os arquivos de LaTeX eram textos comuns, iguais a código-fonte, pensei em usar um sistema de controle de versão. O mais tradicional na época, presente em praticamente todos os ambientes Unix, era o CVS. Passei a usá-lo nos meus artigos. Mas havia uma limitação: o CVS funcionava apenas localmente, nada parecido com um GitHub moderno que permite colaboração remota. Ajudava, mas ainda era preciso enviar por e-mail arquivos para o orientador revisar.