O Galpão

Quando terminei a graduação na UFMG, acabei me formando no meio do ano por causa de um semestre que passei com minha família no Canadá. O mestrado da UFMG só tinha entrada no início do ano, então eu teria de esperar seis meses — e eu queria muito sair de casa, ganhar dinheiro e seguir em frente. Pesquisei alternativas e descobri duas opções que aceitavam alunos no meio do ano: a USP e a Unicamp. Candidatei-me às duas, fui aceito na Unicamp e decidi me mudar para Campinas.

Próximo ao início do período letivo do segundo semestre de 1996, embarquei rumo a Campinas. A viagem de ônibus durava a noite inteira. Cheguei de manhã na rodoviária de uma cidade que eu nunca tinha visto e precisava descobrir como chegar ao campus da Unicamp. Era um tempo sem Google Maps, sem celular, sem GPS.

Saindo da rodoviária, perguntei e me disseram: “Você tem de pegar o ônibus que vai até o terminal de Barão Geraldo.” Eu logo iria descobrir que o campus ficava no distrito de Barão Geraldo, um tanto afastado do centro da cidade. Levei um bom tempo circulando no entorno da rodoviária, mas finalmente achei o ônibus. Venci mais uma vez a timidez e consegui também descobrir que teria de trocar de linha no terminal. A viagem foi longa, mas finalmente cheguei no campus. Agora só tinha de achar o prédio certo. Logo vi uma placa apontando para o IMECC (Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica). Fui pra lá e entrei num prédio bacana, com ares de arquitetura modernista.

Quando finalmente consegui encontrar a secretaria de pós-graduação, me explicaram: “Não é aqui. É no Instituto de Computação. Siga esta rua um pouco mais.” Arrastei a mala morro acima até encontrar o prédio do Instituto de Computação da época — um galpão reformado, simples e sem charme, em total contraste com o prédio moderno da Matemática.

Entrei, fui recebido na secretaria, fiz a matrícula, escolhi as disciplinas e conversei com o coordenador da pós-graduação. O pessoal foi gentil e atencioso. Como eu estava com mala e mochila, deixaram que eu guardasse tudo ali enquanto circulava para resolver a burocracia em outros prédios. E assim comecei a conhecer a Unicamp a pé: perguntando direções, olhando mapas de papel, procurando o bandejão e telefonando do orelhão sempre que precisava falar com alguém em casa.

A secretaria da pós-graduação era ponto de encontro dos alunos; todo mundo passava por ali. Alguns colegas perceberam que eu era novo e vieram conversar, dar boas-vindas, contar o que estavam fazendo no mestrado. No fim do dia, eu tinha de encontrar um lugar pra passar a noite, mas isso é uma estória para o próximo capítulo.