2600 Meeting

Perto do prédio onde morávamos no Canadá havia, na mesma rua, uma livraria especializada em quadrinhos e cyberpunk chamada Nebula Books. Era o nosso playground — o lugar onde gastávamos toda a mesada. Ali encontramos comic books, graphic novels e livros que nunca apareciam nas livrarias brasileiras, além de alguns eventos.

Foi nessa livraria que descobri a revista Mondo 2000, uma publicação cyberpunk experimental. Eles tentavam levar a ideia de hipertexto para o papel: algumas palavras no meio do texto apareciam destacadas e levavam a pequenos quadros na margem com explicações, comentários ou trechos relacionados. Era diferente, estranho, divertido e totalmente novo para nós, que ainda estávamos tentando entender o que hipertexto mesmo dentro do computador.

Um dia, a livraria organizou um evento com Neil Gaiman. Ele já era famoso pelos quadrinhos de Sandman e autografou uma das minhas cópias da Mondo 2000. Também descobri ali os livros do William Gibson, considerado o criador do cyberpunk. E, paralelamente a isso tudo, começamos a ler O Senhor dos Anéis e o Mochileiro das Galáxias, que pegamos emprestado na biblioteca, porque era mais barato que comprar.

Outra revista que encontramos no Canadá foi a 2600: a revista hacker mais famosa do mundo. Nós já sabíamos da existência dela, mas era quase impossível conseguir cópias no Brasil. No Canadá, era barata e fácil de achar. Compramos várias edições, levamos todas de volta para o Brasil. Aí a turma toda queria pegar emprestado.

Depois do retorno ao Brasil, a vida voltou à rotina: aulas à tarde e, depois, uma cerveja com os amigos. Um dos lugares onde nos reuníamos era o bar da Associação dos Funcionários da UFMG, que não só era dentro do campus como também era barato. De vez em quando eles organizavam bingos e a gente até jogava (embora alguns colegas tivessem a mania de gritar bingo mesmo sem terem jogado). Em uma dessas tardes, falando sobre a 2600, lembramos das seções da revista dedicadas aos 2600 Meetings. Resolvemos criar o nosso: marcamos o Meeting 2600 no próprio bar dos funcionários da UFMG. E esse encontro está listado na revista até hoje como o único encontro no Brasil.

Naquele período, outra febre tomou conta do departamento: o IRC (Internet Relay Chat). Era um sistema de chat antigo, mas já com conceitos de salas temáticas e canais. O pessoal passava horas ali. Meu irmão se tornou um grande adepto e chegou ao ponto de escrever o próprio cliente de IRC, chamado girirc. A melhor parte era a licença do software: a licença anarquista do Girino.

Dois amigos meus, o Galdino e o Meshunior, trabalhavam em um dos convênios do departamento, cuidando do ponto de presença do projeto Rede Internet Minas. Eu vivia na salinha deles conversando e aprendendo sobre redes, vendo como era o dia a dia de administradores que mantinham serviços no ar. Aquilo tudo me fascinava. Olhando para trás, talvez tenha sido uma influência importante em decisões futuras da minha carreira. Mas essa já é outra estória.