Canadá

Depois do terceiro semestre do curso, passei uma temporada em Montreal, no Canadá, porque minha mãe foi fazer um postdoc em uma universidade de lá. Ela viajou primeiro; eu e meu irmão ficamos no Brasil até o meio do ano. Antes da mudança, começamos a preparação para continuar estudando em Montreal: pesquisamos universidades, avaliamos cursos, fizemos aulas de inglês e nos preparamos para o TOEFL. Foi um processo burocrático, com traduções e emissão de documentos junto à secretaria da UFMG, mas no fim consegui ser aceito em Ciência da Computação na Concordia University.

No dia da viagem, embarcamos rumo a Montreal com escala em Toronto. Fizemos a imigração, pagamos por um carrinho de bagagem e logo percebemos que tínhamos muito pouco tempo pra chegar até o portão para a conexão. Abandonamos o carrinho ali mesmo, subimos as escadas correndo mas conseguimos embarcar no voo para Montreal.

Alguns dias depois fui conhecer a universidade. A Concordia tinha um programa de acolhimento para estudantes internacionais, e ali conheci gente do mundo inteiro. Fiz amizade com brasileiros recém-chegados, outros que já viviam fora e um colombiano que havia ido estudar cinema. Eu achei uma opção de curso bastante ousada, mas ficamos amigos assim mesmo. Conheci também o Ricardo, filho de um funcionário da ONU lotado em um país africano em conflito. Como a família não podia permanecer lá, mudaram-se para o Canadá. A mãe dele fazia pão de queijo com queijo gouda — coisa raríssima em Montreal — e nós aproveitávamos cada fornada.

Minha mãe ficou amiga de um professor da Université de Montréal, a UdeM, e ele me convidou para visitar o Departamento de Computação. Ele também nos emprestou um Macintosh antigo, meu primeiro encontro com um Mac e um volta ao universo Apple depois de muitos anos. O computador tinha um modem, e, como ligações locais eram incluídas na assinatura telefônica, fomos autorizados a usá-lo. Assim, eu conseguia conectar na universidade.

O Mac virou ferramenta diária. Eu fazia telnet para a minha conta na UFMG e usava o talk para conversar com meus amigos no Brasil. Usava também para acompanhar as disciplinas da Concordia. Um dos cursos era um laboratório de C usando Turbo C, focado apenas em exercícios com apoio de um monitor.

Em um dos trabalhos, precisei ler dados de um arquivo e criei uma função chamada read(). O programa dava erros absurdos e nem o monitor da disciplina conseguia entender o motivo. Quando desisti de continuar tentando no laboratório da universidade e levei o código pra continuar trabalhando de casa, compilei o código no Mac, o compilador acusou imediatamente o problema: eu havia redefinido a função read() da biblioteca padrão. Conflito de nomes. O Turbo C engolia o erro e só dava erro na execução. Foi o Mac que salvou o trabalho.

Cursei também matérias com acesso ao computador central da universidade, um VAX. Foi o único contato que tive com esse tipo de máquina. Minha impressão era de algo entre mainframe e PC.

Quando chegou a hora de voltar ao Brasil, sabíamos que poderíamos trazer a mudança. Computadores eram muito caros no Brasil, então decidimos investir em uma máquina robusta pra durar muitos anos: um 486 com discos SCSI (em geral pronuncia-se scôsi, mas que a IBM chama de sexy) e o sistema operacional OS/2. O OS/2 foi um sistema que a IBM lançou pra concorrer com o Windows e que permitia executar programas nativos, mas também programas para Windows, trazendo o melhor dos dois mundos. Na época, a propaganda da IBM era que o OS/2 rodava Windows melhor do que o Windows. Compramos também uma impressora jato de tinta, que era super novidade.

Esse computador durou anos. Já no Brasil, tentamos instalar Linux, mas ele não tinha drivers para nosso hardware SCSI. Migramos então para o FreeBSD, que funcionou perfeitamente. Foi minha porta de entrada no mundo BSD, que mais tarde incluiria meu período OpenBSD. Mas essa parte fica para outro capítulo.