A Empresa Júnior

Por volta de 1996, já na metade do curso, comecei a ouvir muitos comentários sobre a empresa júnior de computação da UFMG, a [UFMG Informática Júnior(https://dcc.ufmg.br/ufmg-informatica-junior/). Alguns dos meus amigos, gente que eu respeitava bastante, participavam ativamente, o que despertou minha curiosidade. Passei a frequentar algumas reuniões para entender o que era aquilo. Descobri que a empresa júnior era uma associação formada pelos alunos para prestar serviços de informática, funcionando como uma espécie de laboratório prático do curso: trabalhos reais, clientes reais, responsabilidades reais.
Uma dessas reuniões foi a assembleia para eleger a nova diretoria. Eu estava ali só observando, mas parecia que faltavam candidatos dispostos a assumir a responsabilidade. Em determinado momento, dois colegas que eu admirava muito, o Kênio e o Senna, vieram conversar comigo e tentaram me convencer a me candidatar. Nunca tinha considerado a ideia, mas o fato de duas pessoas que eu respeitava pedirem isso mexeu um pouco comigo. Acabei aceitando, com a promessa de que eles me ajudariam no que fosse preciso.
Fomos eleitos. A diretoria ficou composta por mim, pelo Tim e pelo Zé Albano. Logo esbarramos no primeiro problema: todos nós éramos extremamente ocupados com estágios, aulas, monitorias, namoradas e até outro curso sendo levado em paralelo. Encontrar um horário comum para reuniões era quase impossível. A solução foi pouco ortodoxa, mas eficaz: passamos a fazer as reuniões aos sábados, numa pizzaria perto da Praça da Assembleia. Ali, com pizza e cerveja na mesa, conseguíamos manter a empresa funcionando.
Tentamos algumas melhorias, mas muitas esbarraram na burocracia da universidade. Um exemplo foi o pedido de uma linha telefônica para que clientes pudessem entrar em contato com a empresa. Levamos a proposta ao colegiado, mas ela foi recusada por receio de mau uso da linha. Por outro lado, conseguimos um avanço importante: o centro acadêmico de computação estava inativo naquele período, então negociamos o uso da sala do CA para a empresa júnior. Também colocamos em ordem o registro formal, a contabilidade e toda a documentação. Quando saímos, deixamos tudo organizado.
Mesmo com limitações, alguns projetos surgiram. O Zé Albano executou a maioria deles, desenvolvendo sistemas em Clipper para pequenas empresas, inclusive um controle de vacinas para uma clínica veterinária. A Gisele, minha namorada na época, também pegou alguns trabalhos, oferecendo cursos de Word e Office para microempresas, algo muito necessário numa época em que quase ninguém tinha computador em casa.
Conversamos também com ex-alunos que haviam se tornado empresários. Muitos diziam querer apoiar a empresa júnior, mas desejavam operar como uma consultoria tradicional: receber uma demanda, fechar prazo e orçamento e iniciar o trabalho imediatamente. Isso era incompatível com o caráter voluntário da empresa júnior. Nenhum aluno era obrigado a participar. Para cada projeto, era preciso perguntar quem tinha tempo e interesse naquele exato momento. O esforço para montar equipes era grande e nem sempre funcionava. Essa limitação impediu parcerias mais duradouras e afastou alguns apoiadores.
Depois de um ano, chegamos à próxima eleição. Já próximos da formatura, cada um pensando nos próprios planos, decidimos não concorrer novamente. Assim terminou nossa passagem pela Informática Júnior.
Hoje, olhando para trás, acho que nossa maior falha foi não conseguir engajar mais alunos e trazer mais gente para dentro da empresa. Mas, no lado pessoal, aprendi muito: liderar um time voluntário, equilibrar agendas impossíveis e tentar manter uma organização funcionando foi um exercício valioso.