O Último Semestre

No último semestre do curso, era hora de fazer umas matérias optativas e começar a pensar nos próximos passos. Eu tinha escolhido três matérias que pareciam muito interessantes: sistemas multimídia, tópicos em ciência da computação e robótica. Como no semestre anterior a gente tinha começado a trabalhar no projeto da Expert Solutions, e eu tinha escolhido uma matéria a mais do que o necessário, achei que estava ficando tudo muito puxado e acabei desistindo da matéria de robótica. Foi uma boa decisão pra diminuir o estresse do último ano.
Na matéria de multimídia, o professor estava totalmente focado em HTML na época. Ainda era uma tecnologia bastante nova, em evolução, e já começava a dar sinais de que podia ser uma possibilidade para a construção de sistemas multimídia. Eu acho que ele estava certo na visão de futuro, mas, na época, a tecnologia ainda não estava madura o suficiente para permitir criar sistemas realmente multimídia em cima de páginas HTML. O trabalho do meu grupo era fazer um passeio virtual pelo prédio do Instituto de Ciências Exatas. A ideia era tirar fotos dos corredores e montar um sistema meio parecido com o Google Street View: clicar na parte central da foto levava pra frente, clicar num dos lados fazia virar para aquela direção. Se tirássemos fotos de todos os cruzamentos, seria possível navegar o prédio inteiro. No fim, fizemos só um pedaço — era foto demais, e deu muito mais trabalho do que imaginávamos. Nessa época, ainda não tínhamos câmeras digitais, então tinha de fazer a foto, revelar e depois escanear.
A outra disciplina era tópicos em ciência da computação, com o professor Bauer, o mesmo da estória dos vírus. Essa disciplina tratava de assuntos genéricos e aleatórios que estivessem na moda naquela época. O professor deixava os alunos sugerirem temas, depois dividia em grupos, e cada grupo apresentava. Os dois tópicos de que me lembro foram vírus e redes ATM. Vírus ainda eram uma coisa meio sobrenatural naquela época. As pessoas sabiam que existiam, sabiam que eram um problema, mas poucos realmente entendiam como funcionavam. Para essa matéria, consegui comprar o livro do Fred Cohen, A Short Course on Computer Viruses, e usei o livro para preparar minha apresentação, incluindo um slide com a definição matemática de um vírus de computador (essa figura ali no topo da página). Era uma forma de causar impacto. Deve ter funcionado, porque o professor copiou meu slide e passou a usá-lo nas apresentações dele. O outro tópico, redes ATM, representava a última moda em redes de computadores e marcava o início da adoção da fibra óptica como meio físico.
Eu também continuava a minha iniciação científica era ligeiramente relacionada à criptografia. Eu queria que fosse diretamente sobre criptografia, mas não havia ninguém que pudesse me orientar nessa área. Meu interesse, que começou com o PGP, me levou a procurar mais material, e foi assim que descobri o trabalho do Bruce Schneier, incluindo seu livro. Foi o meu primeiro livro de criptografia. Alguns anos depois, descobri que o mundo acadêmico tinha críticas ao Schneier, mas, naquela época, foi a melhor bibliografia possível pra começar a aprender a matemática por trás dos algoritmos. Como Schneier também escrevia sobre temas mais gerais de segurança da informação, passei a acompanhar seu trabalho, o que ampliou meus horizontes e me apresentou aspectos da área que eu ainda não conhecia.
Fonte da imagem: Cohen, Frederick B. A Short Course on Computer Viruses. 2nd ed., Wiley, 1994.