Bit de Costas

Enquanto resolvia as questões burocráticas da universidade, comecei também a procurar um orientador — passo essencial no mestrado. Eu já sabia que a Unicamp tinha um grupo forte em segurança e criptografia, área que me atraía desde a graduação. O coordenador da pós-graduação me orientou a procurar os professores Paulo Lício e Ricardo Dahab. Fui falar com os dois.

A conversa com o professor Ricardo Dahab fluiu imediatamente. Ele liderava o grupo de criptografia do instituto. Aquela reunião acabou definindo o rumo da minha vida acadêmica: ali encontrei meu orientador.

Ao mesmo tempo, uma coincidência curiosa me aproximou de um colega que se tornaria importante: o Pagliusi. Algum tempo antes da mudança, eu tinha lido uma mensagem dele em alguma lista internacional sobre segurança ou criptografia. Notei que o e-mail era da Unicamp e que ele procurava o código do PGP, que na época ainda enfrentava restrições de exportação. Como eu já conhecia a história do livro usado para contornar a proibição, respondi indicando que o código estava disponível em ftp.funet.fi. Aproveitei e mencionei que havia sido aceito no mestrado de computação da Unicamp.

Ele, que é sempre muito gentil, puxou conversa na mesma hora. Perguntou sobre meus planos, deu dicas sobre a cidade e disse para procurá-lo quando eu chegasse. De fato, nos primeiros dias em Campinas fui atrás dele. Ele me ajudou com informações sobre moradia, sobre o departamento e sobre o ambiente acadêmico. Foi a primeira pessoa do Instituto de Computação que conheci — antes mesmo de sabermos que acabaríamos no mesmo grupo de pesquisa.

O projeto de mestrado do Pagliusi era usar o PGP, integrá-lo com o Emacs e permitir o envio de e-mails criptografados. Sem acesso ao código do PGP, ele não conseguia avançar; então encontrá-lo foi essencial para destravar o trabalho. Durante o mestrado, conversamos muito sobre PGP, criptografia e inúmeros outros tópicos. O Pagliusi, sem querer, acabou proporcionando ao grupo de criptografia uma das experiências mais interessantes da minha passagem pela Unicamp.

Ele, não sei como, foi contactado por uma cara que dizia ter inventado um novo algoritmo criptográfico e que queria ajuda da Unicamp para validar o seu trabalho. Como o Pagliusi era muito sociável e sempre enxergava as pessoas por um prisma positivo, ele acabou organizando uma palestra e convidando o autor do algoritmo para apresentá-lo aos alunos e professores do grupo de cripto.

Quando o tal autor chegou e começou a falar, foi fácil perceber que ele era totalmente maluco. Ele começou contando a estória de como inventou o algoritmo: ele começou a ver os bits em 3D e foi quando ele viu os bits de costas é que ele teve a ideia do algoritmo. Ele passou a palestra explicando o lance dos bits de costas, mas não falava nada do tal algoritmo.

Quando ele acabou a apresentação dele, veio a primeira pergunta: “Mas como funciona o seu algoritmo?”, acompanhada da resposta: “Mas seu contar isso pra vocês, vocês podem copiá-lo”. No final, o saldo da noite foi que a gente aprendeu bastante sobre bits de costas, mas nada sobre criptografia…