Movimento dos Sem Tese

Depois de definido o orientador, os próximos passos eram escolher as disciplinas, fazer a mudança e começar a me adaptar à nova vida. Como eu tinha feito uma graduação de ciência da computação, consegui pedir dispensa de uma série de disciplinas obrigatórias. Isso me deu mais flexibilidade para escolher o que quisesse cursar. Meu foco acabou sendo muito mais nas áreas de redes e sistemas distribuídos do que nas demais áreas oferecidas.
Ao mesmo tempo, eu trabalhava com o meu orientador, o professor Dahab, para definir um tema de tese e começar a estudar tópicos mais específicos de criptografia. Uma curiosidade é que, apesar de tanto o mestrado quanto o doutorado terem sido na área de criptografia, e apesar de eu estar sendo orientado por um professor do grupo de criptografia, eu nunca tive a oportunidade de cursar uma disciplina formal na área. Durante o período do meu mestrado, simplesmente não foram oferecidas disciplinas em criptografia. E o mesmo aconteceu no doutorado. Mesmo assim, estudei bastante: lia artigos e livros, participava de seminários do grupo e fazia as tarefas que meu orientador me passava.
Logo nas primeiras conversas com o Dahab, começamos a falar sobre minha experiência e conhecimentos em criptografia. Mencionei o livro do Schneier e imediatamente ele torceu o nariz. Como eu já mencionei, esse livro não era muito bem aceito no ambiente acadêmico. Ele realmente peca no rigor matemático, mas eu ainda acho que fazia sentido para o público que pretendia atingir. O Dahab então me apresentou o livro do Alfred Menezes, o Handbook of Applied Cryptography, que tinha um rigor matemático muito maior e, melhor ainda, havia sido disponibilizado gratuitamente na internet pelos autores. Era só baixar o PDF, imprimir e começar a ler. Virou o meu livro de referência durante os meus estudos do mestrado e doutorado.
O Menezes tinha colaboração com o grupo de criptografia da Unicamp e já tinha visitado o instituto algumas vezes. Uma estória que me contaram é que, numa palestra, ele encheu o quadro de fórmulas sobre criptografia de curvas elípticas, que era a febre do momento. Alguém perguntou: “professor, mas como implementa isso?”. Ele respondeu: “você implementa esta conta aqui.” Para mim, aquilo sempre simbolizou o fato de que criptografia é matemática aplicada: no fim das contas, são fórmulas a serem implementadas exatamente como aparecem no quadro.
Quanto às matérias, lembro que ficou claro rapidamente que a Unicamp tinha uma profundidade muito maior em temas ligados à teoria da computação e matemática aplicada (como grafos). Estudei a arquitetura CORBA, uma forma de construir sistemas distribuídos que já não se usa mais. E lembro também da matéria do professor Buzato, em que estudávamos protocolos para sistemas distribuídos. Numa das aulas, ele explicou um protocolo e comentou que um grupo da UFMG tinha demonstrado que ele era incorreto. Isso serviu para ilustrar que demonstrações de corretude às vezes não cobrem todos os casos possíveis. Por coincidência, eu tinha visto uma apresentação do Kêmio na UFMG exatamente sobre essa descoberta. Ele estava construindo um simulador para protocolos distribuídos e, ao testar aquele protocolo, o sistema entrava em deadlock (apesar de o artigo afirmar que isso era impossível). Eles acharam que o erro era no simulador; depois de muito trabalho, conseguiram reproduzir o caso e concluir que o protocolo falhava num cenário muito específico. Quando o Buzato mencionou o artigo, perguntei se ele queria o paper, e acabamos estudando esse trabalho em aula.
Fora das aulas, eu me mudei para a República Falcão e estava tentando me adaptar a uma cidade nova, uma casa nova, colegas novos… A adaptação na república foi tranquila: o pessoal era bacana, me acolheu super bem e ainda rendeu uma boa vida social, porque eles adoravam fazer festas na casa da república. No mestrado, a maior parte dos alunos já estava por lá desde o começo do ano, então já havia grupos formados, inclusive grupos de pessoas que vinham da mesma universidade. Mas aos poucos achei meu lugar. Acabei me juntando à turma do Nordeste. Cada um vinha de um canto, então todos estavam em busca de se enturmar. Foi essa turma que fundou o MST-4, o Movimento dos Sem Tese 4 de Abril (ou algum outro mês — minha memória pode estar falhando, mas era a data de fundação do movimento).