Avaliação de desempenho

Durante a visita a Nova Iorque, eu também tive a oportunidade de ter algumas discussões interessantes com os colegas do escritório. Uma dessas conversas foi com o Stephan, o diretor da área, sobre o uso de SSH dentro de uma VPN e as possíveis consequências que isso podia trazer por causa de dupla criptografia e ataques de Meet in the Middle. Isso me levou a estudar mais a respeito e a aprender o motivo de existirem os algoritmos DES e 3DES (ou triplo DES) e de não existir o duplo DES. Aprendi sobre os ataques a cifras duplas e entendi que quebrar uma cifra dupla é apenas ligeiramente mais caro do que quebrar uma cifra simples. Já com cifras triplas isso não acontece.

Ainda em Nova Iorque, um colega me ensinou a pronunciar Public Key. Eu pronunciava de um jeito que ficava parecendo que eu estava falando uma chave púbica e não uma chave pública. Devia soar muito estranho aos ouvidos dos americanos, e eu só fui perceber essa nuance muitos anos depois.

Eu estava de volta a Campinas e continuava trabalhando remotamente meio período e fazendo o doutorado. A vida seguia mais ou menos normalmente, mas comecei a ficar preocupado com a dificuldade de comunicação com o meu novo gerente. Ele não respondia aos meus e-mails e não me passava tarefas. Como era meu primeiro emprego numa empresa, cheguei a achar que isso era normal e que eu precisava ser mais independente e definir minhas próprias tarefas. Então comecei a inventar coisas para fazer, principalmente atividades que eu podia executar remotamente. Havia algum trabalho de suporte a usuários em que eu conseguia ajudar, e passei a gastar uma boa parte do meu tempo com a análise de logs dos firewalls. A partir desses logs, dava para identificar muita coisa na rede que não estava configurada corretamente e entrar em contato com os responsáveis para tentar ajustar o que fosse necessário. Às vezes era um sistema que precisava de algum ajuste; em outros casos, era uma alteração na configuração do próprio firewall.

Eu passava dias vendo logs na minha tela, tanto que a gente brincava que aquilo parecia a Matrix: eu sabia tudo o que estava acontecendo na rede a partir daquela chuva de caracteres na tela. Comecei também a identificar tentativas de ataque à nossa rede e passei a mandar essas informações para os responsáveis por aqueles endereços. Era uma época em que ainda se recebiam respostas para esse tipo de contato, embora nem sempre.

Essas análises de logs, os resultados e os ataques que eu identificava eram todos comunicados ao meu chefe, obviamente. Mas apenas em casos extremamente raros eu recebia algum retorno vindo dele. Eu ficava constantemente pedindo para que ele me informasse quais eram as tarefas prioritárias e em que eu deveria focar, mas ele me ignorava completamente.

No meio disso, no segundo semestre de 2000, a gente descobriu que a Gisele estava grávida do nosso segundo filho. Nessa época, paramos para reavaliar a nossa vida e definir como iríamos seguir dali para frente, principalmente porque a chegada de um segundo filho tornaria a nossa rotina um pouco mais complicada. A decisão foi voltar para Belo Horizonte e continuar tanto o mestrado dela quanto o meu doutorado remotamente. Voltar para BH nos permitiria estar mais próximos da família e eu mais próximo do escritório da Intelligenesis, podendo inclusive passar a trabalhar em horário integral para aumentar a nossa renda. Começamos então as conversas e os preparativos para essa mudança.

No trabalho, o final de ano era uma época de avaliações de desempenho. Eles faziam uma espécie de avaliação 360°, em que éramos avaliados pelos chefes, mas também podíamos dar feedback e avaliar nossos gestores. A situação com o meu chefe não estava boa, e acredito que deixei claro na avaliação que precisava que ele se comunicasse comigo e respondesse aos meus e-mails. Nunca tive acesso à avaliação que ele fez de mim, mas imagino que não tenha sido boa, porque houve uma preocupação da chefia de tratar aquela situação. Ter um chefe que não gosta da gente é sempre complicado, porque ele tem o poder de ajudar ou atrapalhar a nossa carreira, inclusive com a possibilidade de demissão. Nesse caso, eu tinha a vantagem de que o Cássio, responsável pelo escritório no Brasil, me conhecia bem e há bastante tempo. O Cássio, inclusive, é um dos personagens da história que contei sobre o encontro da revista 2600.

O Cássio percebeu que a situação não estava boa, mas tinha confiança na minha capacidade técnica. Essa confiança foi a minha sorte naquele momento, porque, em vez de simplesmente seguir a vontade do meu chefe direto de se livrar de mim, ele resolveu me transferir para outra área. Foi uma forma de contornar a birra que o chefe tinha tomado comigo (até hoje eu não sei o motivo) de me dar uma segunda chance e de permitir que a empresa aproveitasse a minha capacidade em outro time.

Com a mudança de time, mudou também o tipo de trabalho que eu fazia. O Cássio me colocou no time gerenciado pelo meu amigo Arnaldo e me deu a tarefa de definir um protocolo de comunicação segura entre as instâncias de inteligência artificial que seriam futuramente produzidas pela empresa. A ideia era que, embora as IAs fossem autônomas, haveria a necessidade de comunicação entre elas, e a empresa queria garantir sigilo e autenticação nesse processo. Nessa segunda fase na Intelligenesis, passei a trabalhar com a definição e implementação de protocolos de comunicação. O desenho inicial do protocolo era bem simples: as mensagens seriam codificadas em XML e transmitidas via internet de forma cifrada e assinada. Era uma ideia bem próxima dos envelopes digitais usados pelo PGP. A escolha da empresa foi adotar um modelo de certificados digitais baseado em PKI, com uma estrutura gerenciada pela própria empresa, em contraste com a estrutura descentralizada usada pelo PGP.

Com essas definições básicas, passei a construir um protótipo em Java, que era a linguagem usada na empresa. Nessa época, ainda não existiam os padrões de segurança e criptografia baseados em XML, então começamos a definir os nossos próprios padrões. Vale lembrar que XML era o estado da arte da época.

Com a mudança para um time voltado ao desenvolvimento de software, passei a ter contato diário com novas ferramentas. Usávamos uma ferramenta de modelagem de sistemas chamada Together e um sistema de controle de versão chamado Subversion (ou SVN). Aprendi também sobre os usos e a importância de testes no desenvolvimento de software, principalmente testes de unidade e de integração.

Tudo parecia ir bem na minha nova função, mas, nessa época, ocorreu a chamada primeira bolha da internet na bolsa de valores. Várias empresas estavam supervalorizadas, mas ainda não tinham faturamento. Dependiam totalmente de investimentos e, na primeira crise econômica, esses investimentos diminuíram ou acabaram, e as empresas não tinham como se manter. A Intelligenesis ainda dependia totalmente de investimentos: o faturamento não cobria as despesas. Antes da bolha estourar, a empresa vinha negociando uma nova rodada de investimentos. Com a crise, todos os investidores recuaram, e a empresa ficou sem dinheiro para pagar as contas. No dia 2 de abril de 2001, todos os funcionários receberam um e-mail informando que a empresa havia falido e que não teria condições de pagar os salários daquele mês (e não era uma brincadeira de primeiro de abril atrasada).

A partir daquele momento, eu — assim como todos os outros funcionários da empresa — estava oficialmente desempregado. Mas essa é uma história para o próximo capítulo.


Conselhos que ninguém pediu mas que vou escrever mesmo assim:

  • Um chefe ruim ou que não goste de você pode ser um atraso na sua carreira. Um bom chefe pode alavancar uma carreira. No caso acima, eu tive muita sorte por já ser conhecido e amigo de muitas pessoas na empresa. Meu conselho: fuja de chefes ruins, seja pra outra função na empresa ou em outro emprego.