A decepção

No penúltimo capítulo, mencionei que o meu doutorado ainda estava em andamento. Nas conversas com meu orientador, havia um ponto ao qual voltávamos várias vezes: tínhamos uma boa definição do protocolo, mas não tínhamos conseguido uma demonstração formal de sua segurança. Na área de criptografia, é fortemente recomendado que se façam demonstrações formais das propriedades de segurança de um protocolo para que ele seja bem aceito pela comunidade acadêmica. Esse era um problema identificado, e eu tentei resolvê-lo diversas vezes.
Naquela época, o método de demonstração formal mais utilizado e aceito para protocolos criptográficos era o modelo de Random Oracle. Meu orientador me indicou leituras sobre esse método. Li o material, busquei outras referências para entender melhor a metodologia e comecei a tentar adaptar o meu protocolo ao modelo proposto. O problema é que não havia uma forma direta de fazer esse encaixe. Eu sempre acabava precisando de dois oráculos, enquanto o método pressupunha apenas um. Esses modelos não tinham sido concebidos para esquemas de proxy signature como o meu protocolo, o que tornava a aplicação bastante difícil. Tentei de várias formas, mas nada parecia funcionar. Ficava na dúvida se eu não tinha compreendido corretamente o método ou se havia uma limitação estrutural no próprio modelo.
Havia um pesquisador estrangeiro da área de criptografia que havia se mudado para o Brasil. Ele tinha trabalhado com alguns dos grandes nomes da criptografia e, além da experiência em criptografia tradicional, atuava também em criptografia quântica, um tema que estava bastante em evidência naquela época. Imagino que esses fatores tenham levado meu orientador a querer aproximar-se dele, talvez até estabelecer uma colaboração. Meu orientador parecia confiar bastante em sua competência, a ponto de ter influenciado a mudança do tema de tese de um colega que focava em criptografia quântica.
Se não me engano, foi esse pesquisador que comentou com meu orientador sobre a necessidade de adicionar provas formais baseadas em Random Oracle ao meu trabalho. Diante das dificuldades que eu enfrentava para encaixar o protocolo nesse modelo, aproveitei uma oportunidade em que participamos do mesmo evento em Brasília e o convidei para jantar em minha casa, para conversarmos sobre o problema. Depois do jantar, sentamos na sala e pedi a ajuda dele para encaixar o protocolo no modelo sugerido. Após algum tempo, desistimos. Não conseguíamos avançar. O impasse permaneceu. Conversei com meu orientador outras vezes sobre o assunto, mas concluímos que não conseguiríamos produzir a demonstração formal naquele momento e que o melhor seria seguir adiante.
O prazo máximo para a defesa se aproximava. Conversei com meu orientador e ele concordou em fazermos uma tese no formato de tese de artigos, que seria mais rápida de preparar do que uma tese tradicional. A tese de artigos consiste basicamente em transformar os artigos publicados em capítulos, escrever uma introdução e uma conclusão e organizar o material como um todo coerente.
Passei então a focar na redação da introdução e da conclusão e a consolidar uma primeira versão preliminar do que seria a tese. Tivemos algumas rodadas de revisão e, ainda dentro do prazo regulamentar, entregamos o texto à secretaria de pós-graduação para que a defesa fosse marcada.
Para compor a banca, meu orientador escolheu dois membros externos. O primeiro era amigo dele de longa data e professor em uma universidade federal do sul do Brasil. Já trabalhava na área de segurança havia bastante tempo e, embora não fosse propriamente da área de criptografia, atuava em temas relacionados a protocolos de segurança. O segundo era o pesquisador europeu. Com a banca definida, marcamos a data da defesa e divulgamos o anúncio no instituto. Comecei também a organizar a viagem para Campinas. Avisei meus pais, que decidiram ir assistir à defesa.
Quando eu já acreditava que estava tudo pronto, meu orientador me ligou novamente para dizer que, sem as demonstrações formais de segurança, a tese não seria aprovada. Para mim, era evidente qual dos membros havia levantado essa exigência, pois apenas um deles conhecia em profundidade aquele ponto frágil do trabalho. Foi um dos telefonemas mais inesperados e impactantes que recebi, próximo em intensidade ao dia em que me ligaram para informar que meu pai havia falecido.
Com a defesa cancelada, não havia mais possibilidade de manter a matrícula ativa no programa. Ficou acordado que eu continuaria o trabalho mesmo sem estar oficialmente matriculado, e que ele seguiria me orientando. Quando concluíssemos a parte considerada insuficiente, eu poderia me matricular novamente, com aceitação praticamente automática, apenas para defender e receber o diploma. Eu não tinha outra alternativa alternativa a não ser tentar completar o que supostamente faltava na tese.
Com o passar do tempo, fui perdendo não apenas a esperança de alcançar o resultado esperado, mas também o entusiasmo e a vontade de continuar. O que se exigia de mim parecia tão ou mais difícil do que todo o trabalho que eu já havia realizado. Aos poucos, fui abandonando o doutorado. Também já não fazia tanta diferença profissionalmente ter ou não o título, o que reduziu ainda mais o incentivo para persistir.
Alguns anos depois, ao me aproximar da comunidade de criptografia em Brasília, conheci um professor da UnB especialista na área, com quem acabei criando amizade. Na época, Anderson era considerado um dos pesquisadores mais promissores do país. Conversamos algumas vezes sobre a minha tese, entre chopes e risadas. Até que, em uma dessas conversas, ele comentou que havia lido a tese vencedora de um concursos importante nos Estados Unidos. Essa tese apresentava exatamente um modelo formal para provas de segurança em protocolos de proxy signature. Em outras palavras, o que haviam me pedido para desenvolver era justamente o tipo de contribuição que viria a ser reconhecida e premiada como relevante na área.
Não me arrependo de ter feito o doutorado. Aprendi muito e estudei temas que até hoje influenciam a forma como penso soluções em computação. O que às vezes lamento é que talvez fosse possível ter seguido outro caminho institucional e concluído a defesa.
O conselho que deixei no capítulo sobre a escolha do tema de tese tem relação direta com essa experiência. Trabalhar em temas mais próximos da especialidade do orientador pode evitar situações como a que eu vivi.