O instrutor emburrado

Eu já mencionei que uma das atribuições do time de segurança da Câmara era cuidar da infraestrutura de firewall. Isso incluía não só manter e configurar os equipamentos existentes, mas também planejar a evolução dessa infraestrutura, incluindo capacidade e topologia.

Naquela época, a Câmara tinha planos de implantar uma rede sem fio em todos os prédios e aumentar significativamente a capacidade da rede local. O time de redes planejava usar troncos de 40 MB/s como backbone. Com esse aumento, os firewalls passariam a ser o gargalo, já que não tinham capacidade para processar tráfego nessa escala. Isso nos obrigou a reavaliar toda a infraestrutura de firewalls para garantir que ela estivesse dimensionada de acordo com o novo cenário.

Naquele momento, encontrar firewalls que suportassem esse nível de throughput não era simples. A Câmara utilizava CheckPoint, que era fornecido principalmente como software. Existiam appliances de outros fabricantes que prometiam maior capacidade, mas com soluções proprietárias. Embora achássemos que o projeto de rede estava superdimensionado, não podíamos simplesmente ignorar esses requisitos e subdimensionar a segurança.

O processo acabou sendo bastante complexo porque era fortemente baseado em estimativas. Não tínhamos dados reais suficientes para um planejamento de capacidade mais preciso. No final, as restrições financeiras tiveram um peso significativo na decisão. Para reduzir custos, acabamos aceitando uma capacidade máxima inferior à prevista no projeto de rede. Esse foi um projeto marcado por discussões baseadas mais em suposições do que em dados concretos. No fim, a realidade e o orçamento acabaram sendo os fatores determinantes.

Quando um órgão público compra software, sistemas ou hardware, é comum incluir também treinamento para os funcionários. Isso garante que haverá recursos para capacitar as equipes que vão operar essas soluções. Na Câmara, tentávamos incluir esse tipo de treinamento sempre que possível. Como a licitação não especifica previamente o fornecedor, faz sentido prever treinamento, já que qualquer solução que atenda aos requisitos pode ser adquirida. Em uma dessas compras para o time de segurança, veio incluído um treinamento teórico e prático, que seria realizado em Brasília, no escritório de um parceiro do fabricante. Para quem conhece a cidade, foi em um dos prédios de escritórios do Brasília Shopping. O treinamento duraria uma semana, de segunda a sexta.

Por um motivo pessoal, acabei perdendo a manhã de segunda-feira, mas já estava combinado que eu entraria no curso a partir da tarde. Na hora do almoço encontrei meus colegas na praça de alimentação do shopping e subimos juntos para continuar o treinamento. Foi aí que descobri que o curso praticamente não tinha começado: houve um problema com a chegada do instrutor de São Paulo e, além disso, os computadores preparados para a parte prática não estavam funcionando corretamente. Naquela tarde, o instrutor conseguiu avançar apenas na parte teórica. Antes do final do dia, fomos informados de que o treinamento seria transferido para outro local, com infraestrutura adequada. A partir do dia seguinte, ele aconteceria no centro de convenções de um hotel no Setor de Hotéis e Turismo Norte (SHTN), o que, para mim, acabou sendo até mais conveniente.

A partir daí, o curso passou a funcionar melhor. Tentamos inclusive enturmar o instrutor, levando-o para almoçar em alguns restaurantes da Vila Planalto. Mas, já no final da semana, cometi um erro do qual me arrependo até hoje. Durante um coffee break, conversando com um colega próximo, contei a estória do gringo que havia perdido uma apresentação por ter passado a noite na farra. Não era minha intenção fazer qualquer associação com o instrutor, mas ele ouviu a conversa e entendeu dessa forma. Ficou visivelmente incomodado.

A partir desse momento, o clima mudou completamente. Apesar de termos tentado acolhê-lo bem ao longo da semana, ele passou a conduzir o curso de forma estritamente técnica e distante. Em determinado momento, ele comentou que os problemas do primeiro dia não tinham sido culpa dele: havia tido dificuldades com o voo, a empresa parceira não tinha conseguido preparar os equipamentos e aquilo não tinha nada a ver com ele ter saído na noite anterior. Ficou claro que ele tinha ouvido a conversa. Eu nem sequer tinha estado presente na manhã de segunda-feira e não tinha nenhuma informação concreta sobre o que havia acontecido. Ainda assim, ele se sentiu ofendido. Pensei em esclarecer, mas acabei preferindo ficar em silêncio.

Uma história contada quase como piada acabou gerando um mal-entendido. Olhando em retrospecto, é possível que o estresse acumulado pelos problemas do curso tenha contribuído para a reação dele. Mas, de qualquer forma, eu fui o gatilho.

A principal lição que tirei disso é que contexto é tudo. Não importa a intenção com que algo é dito: dentro de outro contexto, a mesma fala pode ter um impacto completamente diferente. No contexto do instrutor, tudo já estava dando errado, e qualquer comentário nessa linha poderia soar como uma crítica direta. No meu caso, faltava contexto: eu não tinha acompanhado os acontecimentos do primeiro dia e não sabia exatamente o que tinha ocorrido. Desde então, passei a ser mais cuidadoso com esse tipo de situação, tentando sempre considerar o contexto de quem está ouvindo. Ainda assim, é difícil saber exatamente quanto do contexto a outra pessoa tem — ou acha que tem — sobre aquilo que estamos dizendo.