A rede caiu!

Um dos projetos que assumi na ONU foi a instalação de reverse proxies nos escritórios da organização. A ideia era simples no papel: todo acesso à web passaria por esses equipamentos, permitindo controlar o que podia ser acessado e por quem. O projeto começou de forma curiosa. Meu chefe me chamou, mostrou uma pilha de aparelhos e explicou que tudo aquilo tinha sido comprado e tinha de ser instalado antes da garantia vencer. Para me ajudar, contratamos um terceirizado russo que não exatamente o mais técnico, mas era esforçado.

Criamos o plano, definimos configurações padrão e começamos a fase de testes. Enquanto trabalhávamos, mantínhamos o sistema antigo funcionando em paralelo. O problema é que, sem me avisar, não renovaram a licença do sistema antigo. De repente, descobrimos que tínhamos duas semanas para migrar tudo para os novos appliances antes que os antigos parassem de funcionar. Era uma rede com dez mil usuários e qualquer mudança brusca podia gerar um caos considerável, mas agora não havia escolha.

Conseguimos cumprir o prazo e, em uma manhã, direcionamos o tráfego inteiro para os novos equipamentos. A maior parte funcionou bem, mas logo surgiram gargalos importantes. Os appliances estavam sobrecarregados porque haviam sido dimensionados anos antes e a internet estava numa fase de mudança: o uso de SSL estava em franco crescimento. A Cisco (fabricante dos equipamentos) nos ajudou a diagnosticar o problema e encontramos uma solução improvisada, mas eficaz: instalamos o mesmo software em servidores virtuais e criamos um sistema de load balancing entre máquinas físicas e virtuais. Isso manteve o ambiente estável até a compra de novos equipamentos mais potentes.

Com o ritmo puxado, conseguimos contratar mais uma pessoa, que junto com o russo ficou responsável por instalar novos filtros de SPAM, também comprados anteriormente. Esses deram menos dor de cabeça, o que nos permitiu recuperar o fôlego por alguns meses.

Ao mesmo tempo, eu era oficialmente o responsável pela rede local de todo o campus da ONU em Nova York. Isso incluía o prédio da sede, os outros edifícios administrativos, a rede metropolitana que conectava tudo isso aos dois datacenters, a rede Wi-Fi e os links de longa distância com escritórios remotos e organizações parceiras. A operação diária ficava com o UNICC, que já cuidava das redes havia anos, então eles tinham bastante autonomia, embora a responsabilidade final continuasse comigo.

Foi durante esse período que vivi uma das situações mais marcantes da minha carreira. Eu estava no prédio do fundo de pensão para uma reunião. Conversava com um administrador de redes português muito gente boa, que contava histórias da época em que conviveu com soldados brasileiros no Timor Leste. No meio da reunião, meu telefone tocou várias vezes, mas deixei tocando porque não gosto de interromper reuniões. Quando saí do prédio e comecei a caminhar em direção à sede, vi as mensagens acumuladas. Eram do meu melhor amigo no trabalho, todas urgentes. A rede inteira estava fora do ar.

Como eu já estava perto do CPD, corri para lá. A equipe tinha avançado bastante na investigação e estava no processo de recuperar a rede, mas ainda levaram algumas horas até restabelecer tudo. No dia seguinte, houve uma reunião com o diretor da área, recém-chegado, com apenas duas semanas de casa. A intenção era entender o que tinha acontecido e como evitar que se repetisse. Eu ainda estava com peso na consciência por não ter atendido o telefone, mesmo sabendo que não faria diferença na prática. Depois da fala inicial do diretor, levantei a mão e disse que, como responsável pelo time de redes, a responsabilidade final era minha.

Ele respondeu com calma que a reunião não era para buscar culpados, mas para encontrar soluções. Ainda assim, aquele momento marcou o diretor de um jeito inesperado. Tempos depois, no dia da minha despedida, ele contou essa história no discurso de agradecimento e disse que aquilo marcou a imagem que ele tinha de mim. Não como alguém que buscava assumir culpa por vaidade, mas como alguém comprometido com o que liderava, consciente do próprio papel e disposto a carregar o peso das falhas do time. Para ele, aquilo era profissionalismo na prática.

Minha intenção nunca foi aparecer. Eu só queria deixar claro que, durante minha gestão, os problemas da área eram meus. E essa acabou sendo uma das lições mais duradouras da minha carreira. Assumir um erro, encarar a realidade e trabalhar para resolver o que causou o problema é sempre mais eficaz do que tentar esconder.