O último dia

Eu venho de uma família com muitos funcionários públicos e já tinha sido funcionário público quando trabalhei na universidade de Lavras. Ainda assim, Brasília coloca a questão do concurso em outro patamar. Primeiro porque uma grande parte da população da cidade é composta por funcionários públicos, mas também pelo fato de que a cultura do concurso está extremamente enraizada no cotidiano local. Assim, além da conversa sobre concursos ser muito frequente e normal para quem mora na cidade, o mercado de trabalho também é muito afetado pelo fato de que boa parte dos empregos está em órgãos públicos.

Quando me mudei para Brasília eu não tinha muita vontade nem expectativa de voltar a ser funcionário público. Aos poucos, porém, a minha visão foi mudando. Percebi que a maioria dos empregos na área de informática se dividia basicamente em duas categorias: ser funcionário público ou prestar serviço para órgãos públicos. A minha experiência como terceirizado no BRB, a experiência da Gisele como terceirizada em outros órgãos e o melhor entendimento de como o mercado local funcionava me levaram a considerar novamente a possibilidade de fazer um concurso.

Na época em que fiz vestibular, ao pesquisar as minhas possibilidades para definir o que eu queria como carreira, eu tinha me deparado por acaso com informações sobre o concurso de acesso à carreira de diplomata. O início da carreira no Itamaraty é, na verdade, um longo curso de formação pelo qual passam todos os diplomatas. Pra entrar era necessário já ter um diploma de curso superior, então não era o momento de pensar nisso e eu deixei a ideia de lado. Logo depois que me mudei para Brasília, um primo meu passou no concurso do Itamaraty e eu voltei a pensar se aquilo não poderia ser uma alternativa para mim.

Juntando a cultura de concursos que existe em Brasília com esse interesse antigo pela carreira diplomática, decidi tentar o concurso do Itamaraty. Comprei alguns livros para estudar e passei a fazer cursinhos à noite e aos finais de semana, porque o concurso exigia várias matérias que eu não via desde o segundo grau. Coisas como história, geografia e interpretação de texto. O concurso é bastante difícil e costumava acontecer mais ou menos uma vez por ano. Eu fiz essa prova umas três vezes, mas nunca consegui passar da primeira etapa. O foco do concurso tem um viés muito forte de ciências humanas, o que não era muito compatível com a minha formação em computação. Acabei concluindo que, para conseguir passar, eu precisaria estudar quase como se estivesse fazendo outra graduação, o que exigiria uma quantidade de tempo que eu não tinha naquele momento.

Apesar de eu não ter ido bem no concurso do Itamaraty, essa experiência me ajudou a entender melhor como funcionam os concursos públicos, o que é bem diferente do concurso que fiz na época da universidade de Lavras. Depois do Itamaraty comecei a tentar outros concursos voltados para profissionais de informática. O primeiro deles foi o concurso da Controladoria-Geral da União, que tinha uma prova específica de segurança da informação. Nesse concurso, eu acertei todas as questões de segurança e acabei classificado em segundo lugar. Com esse resultado, conversei com meu chefe e eles me ofereceram um pequeno aumento na forma de bônus (no final só recebi uma parte do bónus). Como eu ainda tinha certa resistência pessoal a voltar a ser funcionário público, decidi continuar no emprego.

Algum tempo depois, a Gisele decidiu começar a se preparar para o concurso do Banco Central. Meu irmão, que também é da área de informática e já morava em Brasília, resolveu que faria esse concurso também. Os dois passaram a estudar juntos com bastante frequência. De vez em quando eu me juntava a eles e discutíamos algumas questões. Como eu já tinha estudado um pouco para os concursos do Itamaraty e da CGU, eu tinha uma boa noção de algumas matérias que costumam aparecer em vários concursos, como legislação de licitações e as leis que definem as regras do funcionalismo público federal.

Nós três fizemos o concurso juntos e passamos. Nesse concurso eu fiquei em primeiro lugar no resultado final para a área de infraestrutura de TI. Naquela época, em 2006, eu já estava meio cansado do meu emprego e também um pouco arrependido de ter ficado em vez de ir para a CGU. Eu já conhecia várias pessoas que trabalhavam na área de informática do Banco Central e sempre me pareceu um ambiente bem organizado e estruturado. Assim, a decisão foi fácil: eu trocaria de emprego assim que o Banco Central me convocasse. Fiquei apenas esperando ter certeza de quando começariam as convocações para avisar na empresa.

Depois de uma espera que pareceu mais longa do que realmente foi, o Banco Central convocou nós três para o curso de formação, que é voltado a ambientar os novos funcionários ao seu futuro local de trabalho. Depois desse curso ainda poderia haver algum tempo de espera antes do início efetivo das atividades, mas mesmo assim eu decidi pedir demissão antes de começar. Eu ainda tinha vários dias de férias acumulados naquele ano e imaginei que, na rescisão, receberia o suficiente para nos manter até começar oficialmente no Banco Central.

Trabalhei mais algumas semanas até que chegou o meu último dia naquele emprego. Nessa época a empresa estava tentando vender alguns equipamentos do tipo appliance para segurança de acesso à web e e-mail. Eles tinham um equipamento que seria emprestado para um cliente em Brasília e precisavam de alguém para fazer a instalação e a configuração inicial. Eu não era especialista naquele produto e nunca tinha recebido treinamento para instalá-lo. Mesmo assim, fui designado para a tarefa. Me entregaram a caixa do equipamento e o manual e a missão era instalar e deixar tudo funcionando.

Passei a tarde inteira tentando seguir os passos do manual e continuava encontrando problemas. Se não me falha a memória, o problema estava relacionado a um certificado digital que o cliente precisava fornecer e que não parecia funcionar corretamente naquele equipamento.

Como era meu último dia de trabalho, imaginei que não me passariam nenhuma tarefa grande para começar naquele dia. Foi um engano. Eu até tinha combinado com meu filho de ir ao shopping com ele mais tarde. Quando já eram por volta de sete da noite e o problema continuava sem solução, liguei para meu chefe para avisar que não estava conseguindo concluir a instalação. A resposta foi que eu deveria ligar para o suporte do fabricante nos Estados Unidos porque era necessário resolver o problema.

Como eu queria sair da empresa em bons termos, resolvi tentar mais um pouco. Liguei para o número de suporte internacional usando o celular da empresa. Do outro lado da linha atendeu um técnico indiano com um sotaque muito carregado. A ligação era ruim e nós não conseguíamos nos entender. Depois de várias tentativas de ligar novamente para ver a ligação melhorava (ou se eu conseguia um outro atendente com menos sotaque) ficou claro que a comunicação não estava funcionando. O técnico do cliente que estava me acompanhando também não tinha autorização para fazer ligações internacionais a partir do telefone da empresa.

No fim das contas não teve jeito. Tivemos que abortar a instalação e deixar o problema para ser resolvido pela empresa na semana seguinte. Quando saí do cliente já era tarde da noite e eu não consegui levar meu filho ao shopping como tinha prometido. Mesmo assim, eu ainda achava que tinha feito o possível para deixar uma boa impressão nos meus últimos dias na empresa. Algum tempo depois, quando tentei negociar o pagamento dos dias de férias que a empresa ainda me devia, percebi que estava enganado. O esforço que fiz nos últimos dias não fez nenhuma diferença. Eles acabaram me pagando apenas metade do que deviam, e mesmo assim depois de muita insistência.

Na semana seguinte começaria o curso de formação do Banco Central e também uma nova fase na minha vida profissional. Mas essa já é uma história para o próximo capítulo.