Volta às Aulas

Enquanto trabalhávamos nos projetos de consultoria na Brasil Telecom, meu amigo Pagliusi, que eu já mencionei, entrou em contato e me convidou para ser instrutor de um curso sobre alguns tópicos de segurança da informação para a Marinha. Embora eu não fosse oficialmente empregado (eu trabalhava como PJ), achei por bem conversar com meu chefe, que era um dos sócios da empresa, antes de confirmar se poderia ministrar os cursos. A minha ideia era que esses treinamentos fossem o primeiro trabalho que eu traria para a empresa. Ainda assim, eu havia sido convidado diretamente, e me parecia óbvio que a Marinha tinha a intenção de me contratar como instrutor.
Logo no início, porém, meu chefe assumiu a frente das negociações e acabou acertando que eu seria instrutor em um dos cursos e ele no outro. Com o tempo, fui percebendo que isso não era um caso isolado: havia um padrão claro em que os sócios puxavam para si tudo o que podiam, deixando para os empregados o trabalho mais braçal.
Fechado o negócio, chegou a hora de preparar o curso. Tratava-se de um treinamento sobre IPSec, o protocolo que permite comunicações seguras na internet. Imaginei algo bem prático: colocar os alunos para configurar o IPSec em máquinas virtuais e, em seguida, observar as comunicações entre essas máquinas usando o Wireshark, então conhecido como Ethereal. Fiz alguns testes em casa, preparei as instruções de configuração e depois fui revisar os conceitos teóricos do protocolo, já que o curso também exigiria uma parte conceitual.
Apesar de o treinamento ter se tornado oficialmente um projeto da empresa, acabei usando boa parte dos meus fins de semana na preparação. Houve, claro, um pouco de empolgação por poder ministrar um curso muito próximo da minha área de formação, a criptografia, mas também pesou o fato de que a empresa não dava abertura para usar tempo dos dias úteis nesse tipo de preparação.
No dia do treinamento, quando cheguei à sala na sede do Ministério da Marinha, comecei a preparar o ambiente. E aí surgiram os problemas típicos de aulas práticas: algumas máquinas apresentavam a famosa “tela azul da morte” quando o Wireshark era instalado. Depois de algum tempo, conseguimos contornar os problemas e a parte prática acabou funcionando. Do meu ponto de vista, o treinamento deu certo. O fato de a Marinha nunca mais ter entrado em contato para novos cursos pode indicar que, como a empresa acabou se envolvendo e alterando parâmetros que haviam sido solicitados inicialmente, a avaliação deles talvez não tenha sido tão positiva assim.
Esse período de consultoria na Brasil Telecom coincidiu também com um momento em que tanto eu quanto a Gisele começamos a ter contatos com as universidades privadas de Brasília. Acabamos sendo chamados para dar aulas, principalmente em cursos de pós-graduação. Eu já tinha tido alguma experiência como professor nesse nível durante o período em que morei em Campinas: havia uma escola que pagava minha viagem de Campinas ao Rio para ministrar aulas em um curso de segurança da informação próximo à bolsa de valores.
Em Brasília, fui convidado por uma universidade para ministrar a disciplina de redes de computadores em um curso de pós-graduação em segurança da informação. Foi tudo bastante emergencial: me chamaram apenas uma semana antes do início das aulas, porque o professor anterior havia desistido. O coordenador do curso fez um acordo com esse professor para que eu desse as aulas em nome dele, e ele me repassaria o salário. Avisei desde o início que, com tão pouco tempo, não conseguiria preparar transparências elaboradas e que as aulas seriam dadas principalmente no quadro branco. Alguns alunos reclamaram da falta de material didático, mas deixei claro que não havia tempo hábil para produzi-lo. Compartilhei minhas anotações e pedi que acompanhassem e registrassem o conteúdo discutido em aula. No fim das contas, não foi tão ruim quanto poderia ter sido.
Uma decisão consciente que tomei nesse curso foi evitar provas. Sempre achei provas ruins para os alunos e trabalhosas demais para o professor. Optei por basear a avaliação em trabalhos e apresentações em sala. Como o curso era curto, a nota seria composta principalmente por um trabalho final, com duas partes: um relatório escrito e uma apresentação para a turma. Do meu ponto de vista, a escolha cuidadosa dos temas ajudaria a complementar as aulas. Para os alunos, escrever relatórios e fazer apresentações me parecia uma habilidade essencial para profissionais qualificados.
Os grupos apresentaram seus trabalhos no final do semestre e entregaram os relatórios escritos. Fiquei sinceramente surpreso com a qualidade de muitos deles. Surpreso, mas também desconfiado. Em alguns casos, o nível estava muito acima do esperado. Um dos trabalhos, por exemplo, trazia uma longa seção de bibliografia com referências a revistas internacionais renomadas. Achei estranho que o aluno tivesse acesso a esse material, já que a universidade não dispunha de uma biblioteca particularmente boa.
Resolvi investigar usando o Google. Copiei a primeira frase do trabalho e encontrei exatamente o mesmo texto, com bibliografia e tudo, publicado na internet. Se um trabalho havia sido copiado, era provável que outros também fossem. Pesquisei a primeira frase de todos os trabalhos. A taxa de sucesso foi de 100%. Em um único caso, o aluno havia mesclado trechos de dois artigos diferentes, ambos copiados palavra por palavra. O resultado até fazia sentido, mas continuava sendo plágio.
Levei o problema ao coordenador do curso. Do meu ponto de vista, todos aqueles trabalhos deveriam receber nota zero, além de alguma sanção formal. Eu achava importante deixar claro que copiar textos de terceiros não era aceitável. O coordenador era muito ocupado e era muito difícil falar com ele. Enviei um e-mail explicando a situação e deixei os trabalhos na secretaria do curso.
Em seguida, veio a etapa de receber o pagamento pelo trabalho realizado. Como eu estava oficialmente apenas substituindo outro professor, o pagamento havia sido feito a ele. Entrei em contato com o coordenador para que resolvesse o problema. Não foi fácil: as negociações foram estressantes, mas, com mais de um mês de atraso, acabei recebendo o valor devido.
Depois de toda essa confusão, desisti de dar aulas nessa universidade. Não desisti, porém, da ideia de lecionar em cursos de pós-graduação. Algum tempo depois, fui contratado por outra universidade, agora com carteira assinada. A instituição pagava um valor mensal muito baixo para manter o vínculo formal e remunerava melhor pelas horas efetivamente lecionadas. Muitas universidades privadas adotam esse modelo para poder listar professores com mestrado e doutorado em sua folha de pagamento, o que melhora sua avaliação junto aos órgãos reguladores. Nesse segundo caso, as aulas transcorreram de forma muito mais tranquila, chegamos ao fim do semestre sem grandes problemas e, desta vez, recebi os pagamentos em dia.
No início do semestre seguinte, a universidade decidiu fazer uma mudança em seu quadro de professores e me avisou que meu contrato seria encerrado. Para mim, não houve problema: eu não tinha compromissos além das aulas já ministradas. Alguns dias depois, porém, recebi uma carta convocando-me a comparecer à Justiça do Trabalho para a rescisão do contrato. Eu não entendia bem como aquilo funcionava e achei especialmente inconveniente ter que interromper meu dia de trabalho para comparecer à audiência.
Compareci mesmo assim, mas cheguei alguns minutos atrasado. Ao entrar na sala, fui informado de que a decisão já havia sido tomada à revelia, ou seja, sem considerar minha posição. Eu não queria nada além da minha carteira de trabalho de volta. Por causa dessa confusão, fiquei mais de um mês sem a carteira e tive que enfrentar uma boa dose de burocracia para recuperá-la.
Até que chegou o momento de fazer uma troca: em vez de ensinar, resolvi voltar a ser aluno e me tornar concurseiro, mas isso já é história para outro capítulo.