Furacão Sandy - Depois da chuva passar

O aeroporto ainda estava fechado e ninguém sabia quando iria reabrir. Isso queria dizer que quem estava na cidade prestes a ir embora não tinha como sair. A recepção do hotel começou a ficar cheia de gente que deveria deixar o hotel, mas não tinha mais como ir embora. Os funcionários do hotel não conseguiam chegar ao trabalho, então também não havia gente suficiente para fazer o serviço. Aos poucos, a gente foi percebendo que o caos tinha apenas mudado de feição.
À noite, depois de passar o dia trabalhando para tentar restaurar tudo o que a gente tinha desligado, fui tentar jantar com a minha família. Achamos que o mais fácil seria jantar no próprio restaurante do hotel. O problema é que havia uma falta crônica de funcionários, então eles não estavam conseguindo atender à demanda de todos os hóspedes que queriam jantar. Estava levando quase uma hora para conseguir fazer um pedido. A gente percebeu que não adiantava insistir e fomos para a rua tentar encontrar alguma coisa pra comer. As lojas e restaurantes de rua também tinham suas dificuldades e a maioria estava fechada. Achamos uma pizzaria dessas bem pequenas e entramos. Conseguimos comer e, ao mesmo tempo, percebemos que os funcionários que estavam ali dentro provavelmente tinham dormido ali no chão daquela lojinha. Não tinham como ir para casa e estavam ajudando a alimentar as pessoas que também estavam presas naquela região.
No trabalho, a situação melhorou um pouco. A maior parte dos sistemas já tinha voltado, mas, como o transporte público ainda não estava normalizado, a gente continuou trabalhando de casa. Vários colegas tinham problemas sérios de falta de luz, falta de água, árvores caídas… O meu chefe estava sem água e sem luz e tinha de dirigir até o Starbucks para conseguir carregar o celular. Vários colegas estavam com dificuldade para conseguir combustível para os geradores, para manter as casas aquecidas e ter eletricidade.
No nosso caso, o nosso prédio também estava sem luz. Como a gente morava no 30º andar, o apartamento estava sem luz, sem aquecimento e sem água, que dependia de bombas elétricas pra chegar até o apartamento. O elevador estava parado, e a única forma de chegar até lá era subir 30 andares de escada. A reserva do hotel estava para acabar e a gente achou melhor sair daquele quarto onde estávamos todos meio amontoados. Achamos um Airbnb com três quartos no Harlem e decidimos nos mudar para lá.
Nessa altura, a cidade já tinha alguns poucos ônibus circulando e um ou outro táxi passando na rua. A gente se amontoou em um táxi só e pagou uma fortuna para o motorista nos deixar no Harlem. Quando chegamos lá, a Juju lembrou que tinha esquecido o celular no hotel. Essa foi outra aventura para a Gisele ir com ela resgatar o telefone. Elas gastaram o dia inteiro, mas conseguiram.
O trabalho da Gisele estava parado e o escritório fechado, mas já começaram a falar em voltar. O meu estava rolando desde a noite do furacão, mas ainda em modelo remoto. A escola das crianças estava fechada por falta de luz, então elas ficaram com a minha mãe a maior parte do tempo. Minha mãe deveria ter ido embora pro Brasil na segunda-feira depois do furacão, mas, como o aeroporto estava fechado nesse dia, o voo foi cancelado e ela teve de ficar em Nova Iorque à espera de quando conseguissem encaixá-la em outro voo.
A companhia aérea conseguiu colocá-la em um voo na segunda-feira seguinte, com uma semana de atraso. Nesse ponto, a gente decidiu sair do apartamento do Harlem e tentar voltar para mais perto de casa. Achamos um apart-hotel com um preço bem razoável já no nosso bairro. O problema agora era como ajudar a minha mãe a chegar ao aeroporto. O metrô ainda não estava totalmente funcional, e táxis e carros alugados tinham problemas de falta de combustível. O furacão tinha causado dificuldades na distribuição de combustível pela cidade de Nova Iorque, então até alugar um carro era arriscado, porque podia não haver gasolina. Pesquisamos bastante e acabamos conseguindo uma empresa de transfer que garantia que teria um carro na segunda-feira. Pagamos mais caro, mas funcionou.
Na segunda de manhã, seguimos todos para o sul. Almoçamos, e depois a minha mãe entrou no transfer e nós seguimos para o nosso novo hotel. Tivemos notícia de que ela embarcou e que estava tudo bem. Foi um alívio. Nesse ponto, já eram sete dias fora de casa. Peguei as crianças e subimos os 30 andares para buscar algumas roupas e outras coisas de que precisávamos. Quando chegamos ao nosso condomínio, vimos algo que não esperávamos: alguns idosos não tinham abandonado seus apartamentos e agora, com os elevadores parados, estavam presos em casa, sem luz e sem água. Então houve um mutirão de jovens que colocavam garrafas de água em mochilas e subiam pelas escadas, às vezes 20 ou 30 andares, para levar água para esses idosos.
Nesse período, a Gisele já tinha voltado ao escritório e eu também precisava começar a ir. Mas a escola das crianças ainda estava sem luz, então eles ficavam no apart-hotel. Foram mais uns três dias até que a luz voltou no nosso prédio e na escola. A gente pôde voltar para casa e a vida estava mais ou menos normal.
No trabalho, alguns sistemas muito antigos falharam catastroficamente quando foram desligados; os outros sistemas já estavam funcionando normalmente. A gente entrou então em uma fase de tentar entender o que funcionou e o que não funcionou durante a emergência, e o que precisávamos garantir para sobreviver a um outro evento dessas proporções. O primeiro feedback que tivemos foi que a lista de sistemas que consideramos críticos estava totalmente errada. Os sistemas mais críticos nesse tipo de situação eram os sistemas de comunicação: telefones, BlackBerry e e-mail. Em um evento dessa natureza, o importante era conseguir falar com as pessoas e coordenar as ações.
Fomos informados que sistemas que a gente tinha considerado críticos, como o sistema financeiro, podiam ficar desligados por até duas ou três semanas. Ou seja, aprendemos que era importante conversar com as áreas de negócios antes do desastre acontecer. Hoje isso parece óbvio, mas, naquele momento, era algo com que ninguém da informática tinha parado para se preocupar. Outra coisa que aprendemos foi que precisávamos melhorar o sistema de sincronização de dados entre os dois Data Centers. Esse foi o processo que mais demorou durante a tentativa de migração de um para o outro. E o diretor aproveitou a oportunidade e contratou uma pessoa para fazer um plano de recuperação de desastres.
Do ponto de vista dos times de TI, especialmente do time de infraestrutura, percebemos que precisávamos de mecanismos melhores de comunicação e coordenação e, talvez, de alguma ajuda para que as pessoas estivessem mais preparadas em casa, já que muitos colegas tiveram dificuldades para manter suas famílias em segurança durante o furacão e nas semanas seguintes. Para uma grande parte das pessoas, as semanas depois do furacão foram piores do que a própria noite em que o furacão passou.
Essa foi, talvez, a maior aventura que vivemos, tanto pessoal quanto profissionalmente, durante o nosso período em Nova Iorque.