E vamos nós!

Era novembro de 2011 e, como eu já mencionei, eu estava em Pequim quando recebi a notícia de que tinha sido aceito para uma vaga na ONU em Nova Iorque. Depois de passar por todo o processo de seleção e esperar meses por uma resposta, finalmente tinha acontecido. Voltei ao Brasil e foquei na próxima etapa: enviar toda a documentação solicitada pela ONU. Isso incluía desde exames médicos até documentos pessoais, como passaportes, além dos comprovantes da minha formação e dos meus empregos nos últimos 10 anos.

Logo no início, notei um ponto importante nas instruções: toda a documentação precisava ser enviada em uma das línguas oficiais da ONU (inglês, francês, espanhol, russo, árabe ou chinês). Documentos em português não seriam aceitos. Isso gerou um problemão pra mim. Eu havia estudado em universidades públicas brasileiras e trabalhado em órgãos do governo, e eles não emitem documentos em outros idiomas. Entrei em contato com o RH da ONU para perguntar se poderia enviar traduções juramentadas. A resposta foi que os documentos — e eventuais traduções — deveriam ser enviados diretamente pelas instituições. Esse foi um dos primeiros choques culturais: nos Estados Unidos, isso é comum, mas no Brasil os documentos são entregues ao titular, que fica responsável por encaminhá-los.

Criou-se então um impasse: as instituições brasileiras não queriam emitir documentos em outro idioma nem enviá-los diretamente à ONU, enquanto a ONU não aceitava documentos enviados pelo próprio candidato. No meu caso, isso afetava tanto a comprovação da minha formação quanto a minha experiência profissional no Banco Central e na Câmara dos Deputados.

Passei algumas noites em claro tentando encontrar uma solução. Cheguei a pensar que poderia perder a vaga por conta disso. Até que tive uma ideia: pedir aos responsáveis pelas instituições que enviassem os documentos em português acompanhados de uma carta em inglês atestando seu conteúdo. Entrei em contato com os coordenadores dos cursos onde estudei. Por sorte, ambos haviam sido meus professores e me conheciam, então aceitaram ajudar. Pediram apenas que eu preparasse um rascunho das cartas. Não era um documento oficial da instituição em inglês, mas uma carta assinada confirmando as informações.

Depois de resolver a parte acadêmica, apliquei a mesma estratégia para os comprovantes de emprego. Pedi aos gestores das áreas onde trabalhei que assinassem cartas em inglês confirmando as informações das declarações oficiais. Para simplificar, eu mesmo recolhi tudo e levei aos correios internos das instituições para envio. Era o mais próximo que consegui chegar do modelo exigido. Depois disso, restava torcer para que a ONU aceitasse. E aceitou.

Enquanto isso, eu e a Gisele precisávamos resolver nossa situação profissional. Como mencionei anteriormente, eu poderia solicitar licença sem vencimento para trabalhar em um organismo internacional. Foi o que fiz. No caso da Gisele, seria uma licença por acompanhamento de cônjuge, que costuma ser mais simples. O problema é que esses processos são lentos. No meu caso, havia ainda a falta de precedentes na Câmara, além de uma legislação mais voltada ao Executivo. Fiz o pedido com base nos decretos existentes e aguardei. Como era algo novo, o processo demorou bastante.

Depois que a ONU validou minha documentação, iniciou o processo de emissão dos vistos junto à embaixada dos Estados Unidos em Brasília. Eu esperava que isso levasse semanas, dada a dificuldade de agendamento. Para minha surpresa, em poucos dias recebi instruções para ir à embaixada em qualquer tarde, levando os passaportes e os documentos fornecidos pela ONU. Quando cheguei, estava praticamente vazio. Os atendimentos normalmente ocorrem pela manhã. Mostrei a documentação ao segurança, entrei, fui atendido rapidamente e orientado a voltar no dia seguinte para buscar os vistos. Foi um processo surpreendentemente simples e rápido.

Pedi três meses antes de assumir o cargo. Esse seria o tempo para organizar a mudança e resolver pendências no Brasil. Foi uma fase intensa. Ainda trabalhando, tivemos que lidar com as licenças, alugar a casa, vender móveis e separar o que levaríamos. A ONU oferecia pagar a mudança ou conceder uma indenização. Optamos pelo dinheiro, já que sairíamos de uma casa grande em Brasília para um provável apartamento em Nova Iorque. Fizemos uma venda de garagem e nos desfizemos de quase tudo. A Gisele conseguiu alugar a casa para uma colega que estava começando no Banco Central.

A ONU enviou as passagens: eu viajaria no início de fevereiro de 2012, dois dias antes do meu aniversário, e a Gisele viria com as crianças 15 dias depois. Isso me daria pouco tempo para encontrar um lugar para morarmos.

À medida que a data se aproximava, ainda não havia resposta da Câmara sobre minha licença. Tirei férias e usei todo o banco de horas, o que me deu pouco mais de um mês. Pedi para agilizar o processo, mas sabia que não faria muita diferença. Acabei embarcando sem saber se o pedido seria aprovado. A Gisele conseguiu três meses de licença capacitação, durante os quais faria um curso de inglês para se preparar para o mercado de trabalho em Nova Iorque.

Quase três anos depois de iniciar minha busca por uma vaga internacional, embarquei sozinho para Nova Iorque para assumir meu novo cargo. Começava ali uma nova fase da minha vida profissional e pessoal. Mas essa é uma história para o próximo capítulo.


Notas:

  • O título deste capítulo é um bordão que gosto de usar para falar de viagens e que é inspirado pelo desenho animado Os Impossíveis